Todas


No quarto do Imperador:
Calculista: Oitenta e cinco milhões.
Imperador: Desconte aquelas abaixo de dezesseis e acima de sessenta.
Calculista: Por volta de cinquenta milhões.
Imperador: Pois então: todas.
Calculista: Se vossa majestade passar um minuto analisando cada uma, gastará, naturalmente, cinquenta milhões de minutos, o equivalente a noventa e cinco anos – caso trabalhe vinte e quatro horas por dia, o que me parece impossível.
Imperador: Um minuto é uma eternidade; a primeira seleção, em que pretendo eliminar três quartos do total, será rápida e superficial, e acredito que não precise mais que três segundos, em média, com cada uma. Calcule uma jornada de trabalho de dezessete horas líquidas.
Calculista: Dezessete horas? Ao longo dos anos? Não creio que vossa majestade aguente...
Imperador: Cale a boca e calcule.
Calculista: Mais de sete anos, ao que me parece.
Imperador: Farei com que se reduzam a cinco. Já a segunda fase será complexa; restariam cerca de dezesseis milhões para um reexame rigoroso, até porque entarão de corpo nu. Aqui a média poderá alcançar quinze segundos. Calcule.
Calculista: Acima de uma década.
Imperador: É muito, é muito. Tem de haver um jeito. Quem sabe com a prática, com a experiência, eu consiga ser mais rápido. Acredito que possamos formar agrupamentos de estilos para facilitar a observação.
Um ministro: Majestade, permita-nos uma pré-seleção. O senhor não imagina o volume de aleijadas, banguelas, doentes, obesas...
Imperador, interrompendo: Estúpido, meu próprio ministro, um estúpido, não entende o espírito do trabalho! Me propõe  oferecer as melhores mulheres do país, quantas eu desejar, para simplesmente satisfizer as veleidades do Imperador...
O ministro, interrompendo: Apenas procuro tornar viável o projeto...
Imperador: Se os mais próximos não compreendem a essência da obra, como irão explicar ao povo? Não estou atrás de modelinhos, nem fetiches de qualquer espécie...
O ministro, interrompendo: Senhor, não duvidamos de suas intenções, queremos apenas ajudá-lo a equacionar a logística da operação. Veja bem: uma mulher escolhida, digamos, com trinta anos, que aspecto terá uma década depois, quando vier a ser reexaminada? E, segundo nosso matemático, esse tempo poderá dilatar-se duas, três vezes. Se não planejarmos meticulosamente as coisas, acabaremos por nos perder num emaranhado de imprevistos. Pense bem, majestade, a questão não se reduz a um sistema binário de serve/não serve, como se estivéssemos selecionando ovelhas. Mexer com mulheres significa enfrentar variáveis subjetivas desconcertantes, que obviamente retardarão o trabalho. Por exemplo – é a primeira coisa que me ocorre: nunca foi fácil administrar a histeria caseira de nossas próprias esposas, o que pensar quando estiverem em bando? Haverá tumultos, rebeliões, balbúrdias de toda ordem, quer por terem sido escolhidas ou rejeitadas, ou por estarem à frente do grande Imperador, ou simplesmente por saudades de suas terras – para tudo se encontrará pretexto. Por outro lado, adversidades acontecem com todos nós e V.M. não estará imune a elas; ninguém pode descartar a possibilidade de adoecer ou mesmo passar por um período de estresse. E quanto às outras questões do Estado, sempre exigindo do nosso líder urgentes decisões...? Sem contar com a arbitrariedade das condições atmosféricas...
Calculista, interrompendo: Majestade, desculpe-me por nova intromissão, mas imagino que já tenha contabilizado os milhares de quilômetros que haverá de percorrer diante da fila...
Imperador: Prossiga.
Calculista: Uma mulher tem mais ou menos meio metro de largura; se acrescermos um breve espaço entre elas, V.M. caminhará cerca de trinta mil quilômetros, somente na primeira fase...   
Imperador: Eu sei, essas coisas não são novidades para mim, já pensei em tudo isso, aliás é só o que venho fazendo nesses últimos anos. Há muitos artifícios que vocês não estão levando em consideração. Mas, de fato, diante do ponderado, no que tange à questão da idade, seria pertinente reduzir o limite superior para cinquenta anos – não haveria mesmo sentido reencontrar uma década depois uma mulher sexagenária, e com isso ganharemos algum tempo –  que não será muito, já que essa faixa etária é a menos numerosa. Porém, fico tentado a incluir, em contrapartida, meninas novinhas no lugar dessas idosas e assim projetar, com dez anos de antecedência, nesses rostinhos miúdos, em seus corpinhos pudicos, as mulheres que um dia virão a se tornar...
O ministro: Não faça isso, majestade; não torne as coisas ainda mais difíceis. Se não for pelo bem do projeto, ao menos pelas consequências humanas de submeter crianças a tal provação.
Imperador: Está certo, muito certo. Não quero prejudicar ninguém, apesar do mal que inevitavelmente hei de causar a milhares de famílias. É isto o que tanto me atormenta e retarda o início do trabalho. Mas a obra deve ser feita. Faço porque preciso (meu destino me inflama), mas também porque convencido do grande legado que a humanidade herdará com a sua realização. 
                          





Imperador, pensando: Ver cada uma. Todas! O ideal seria um esforço conjunto que associasse investigações em todo o mundo, em nome de uma grandiosa arguição que se pudesse chamar de exata, não só por atingir a totalidade das mulheres como pela diminuição da subjetividade de um só ponto de vista. Isso não tem cabimento, eu sei, mas será que não tenho o direito de examinar, no perímetro da minha terra, dentro de meu próprio país, nem mesmo aquelas que estão sob meus cuidados? Para então descobrir, despindo-se de estereótipos e maneirismos, a fórmula elementar da mulher em si, a eterna, a mesma, seja ela uma, seja ela uma série. Quem é, o que está contido lá dentro do limiar do seu corpo? Por que a beleza se divide entre todas, que uma não passa de fragmento? Onde repousa a satisfação? Por que ao homem não basta uma, nem cem, nem mil das mais belas? É chegada a hora de alguém analisá-las como um todo, juntas, como uma coisa só; desmistificar a mulher, acabar com esse papo tacanho de mistério feminino. Não há mistério algum e sim desconhecimento. Esse conteúdo que chamamos mulher é analisado com paixão, e eu pergunto: pra que serve a ciência? Pra estudar passarinhos? Por que todos os fenômenos naturais são avaliados de forma racional, menos ela, justamente a responsável por tantos desvios, desvarios e desarmonias da vida humana? Alguém precisa juntar as peças e montar de vez esse quebra-cabeça, e esse alguém sou eu. Quero colhê-las, abraçá-las, selecioná-las em tipos, estudar suas variações – finitas, espero – até codificar uma essência comum, se ali houver (mas há de haver), para um dia enfim devolver a meu povo (ao mundo, que certamente acompanhará de perto minha experiência) a conclusão, a resposta a mais antiga das questões, razão de ser do tormento maior do homem em particular, mas também da própria mulher, de saber afinal o que são, o que querem, ou melhor, como querem!
Muitas já declararam seu amor por mim e eu mesmo, a meu modo, amei algumas. Mas por que uma? ou ainda, será por instinto ou tradição que escolhemos uma em meio a tantas? Oh Deus (se soubessem o quanto me custa), não sei nem formular a questão! Como dar início a uma pesquisa se não tenho claro nem a pergunta? Uma rosa é uma rosa – essa palavra compreende uma pequena variação reconhecível da espécie; um rio é um rio – óbvio em seu sentido, claro em suas metáforas. A natureza, a arte, as leis sociais, as tecnologias – tudo parece estar devidamente nomeado e organizado, dentro do movimento contínuo de transformação e desenvolvimento. O próprio sentido da vida (mesmo metafísico) não causa tamanha turbulência social, não afeta nem oprime tanto as pessoas – quem sabe pela evidência do inatingível, quem sabe simplesmente por ser uma abstração – do que a presença perturbadora de uma mera mulher. Ela está aqui, à nossa frente, é concreta demais, fala como o homem, toma água em copo de vidro, faz compras na mercearia, transpira, espirra, caga – mas ninguém a entende. E por que ela não se explica? Porque – e é assim que resumem a questão – não é de sua natureza! Então, quem há de esclarecer? Aquele a quem interessa a solução, aquele que padece com as consequências: o homem. Para este não há sossego, e não por causa de si – não há nada mais evidente para o homem que seu próprio ser –, mas por tentar compreender e possuir a mulher. Qual seria o motivo para um pedaço de carne mole alterá-lo tanto? Há quem diga que esse abalo advém de resquícios de comportamentos instintivos de origem animal, portanto de natureza irracional e incontrolável. Como pode? Após milhares de anos, atingido tal avanço em todas as áreas do conhecimento, seríamos vítimas ainda, a ponto de adoecermos, enlouquecermos, assassinarmos, de um impulso animal? Não. Aprendemos a dominar a linguagem, e não é possível que não consigamos traduzir a mulher em palavras.
No decurso da história, civilizações as mais diversas concederam ao homem o direito de tomar conta de algumas, amá-las como bem entendesse, chegando muitas vezes até à prática das maiores arbitrariedades – seja como for, a carência primitiva permaneceu sempre inalterada. Para cada mulher que possuímos, milhares são deixadas de lado, justamente aquelas que desfilam pelas ruas, escolas, escritórios, quando não invadem nossas próprias casas, exibindo-se invariavelmente no limiar máximo de sedução – que a característica básica da fêmea é nos atiçar a todo momento, a troco de nada. Elas querem ser medidas, reparadas, desejadas, não lhes interessando as consequências de seus atos irresponsáveis. Não sei como não há lei contra isso; não se atenta para a maldade intrínseca dessa aparente inocência – o sadismo é aceito como inevitável. Provocam-nos com seus rebolados, com o cruzar de pernas, com o sorriso malicioso, cobrem-se com roupas e adereços que, por ocultarem exatamente aquilo que se deseja, realçam-no ainda mais. É claro que tiram proveito das convenções dos costumes, do que, de resto, somos todos cúmplices, nós, maridos autoritários que criamos as regras para tentar assegurar pelo menos uma: a nossa. Mas creio que a própria necessidade desesperada dessa garantia advém do pouco que se possui; se o homem tivesse livre acesso a todas, não haveria de lutar atarantado por uma. Essa barreira limitadora é determinante para a mesquinhez possessiva – não há como viver em paz ao mesmo tempo consigo e com os outros se o material é escasso. Mas quem são os responsáveis por esse estado de coisas? Os homens, as mulheres?
Não se trata de achar culpados, tudo isso começou junto às primeiras tentativas de convívio social – o que não significa que não se possa adotar outro rumo. (Quantos equívocos ancestrais da conduta humana vêm sendo esclarecidos e transformados ao longo do tempo?) Por isso, minha obra não é particular, egoísta, nem acredito em abuso do poder – apesar de ter consciência de que somente alguém com as minhas condições lograria os recursos materiais e humanos necessários para tal empreitada. Não a faço por mim, quero apenas ajudar o homem a livrar-se da angústia desse desejo obscuro. Quero encontrar o engano primordial, se possível detectar o momento do desvio, que deve ter ocorrido num dia qualquer, lá quando o primata resolveu abandonar sua vida solitária e organizar uma sociedade. Deve ter ocorrido então um lapso. O caminho bifurcou-se, e se tomou a vereda errada; havia uma esquina com uma placa apontando às direções uma e todas – mas o homem não sabia ler. Não, posso estar enganado; quem sabe o caminho esteja certo, e eu venha a concluir que as mulheres não passem de uma dúzia de tipos – e, sendo assim, pra que variar? –, ou que haja um ponto de saturação (qual a quantidade?), em que a própria diversidade torne-se repetitiva. Então meu trabalho apenas restituiria à humanidade, depois de percorrida a volta completa, a premissa popular de que uma mulher contém em si todas as outras, e que por isso – mas então, comprovadamente – nos é dado amar somente uma. Serviria, pois, como um atestado de que a vida, seja como for, está certa. Mas por que haveríamos de aceitar tal axioma (aliás, sem lógica alguma)? Por pura ignorância ou por limitação logística para a experimentação? Somente pelo pudor de submetê-las, todas, a uma análise integral? Eu quero demonstrar que o tabu feminino pode ser desmascarado, revelado e substituído por um princípio ativo e, justamente por isso, estabilizador, que traga paz para todos nós, homens e mulheres, assim como um dia a lei da gravidade trouxe ordem para o aparente absurdo do mundo das coisas.






Imperador em outro momento, sem poder dormir: Está chegando a hora, e me encontro ainda tomado pelas dúvidas. A intenção de reduzir a maior parte delas, descartando rapidamente as vazias de espírito, talvez demore mais do que imagino. Elas nos iludem, dependem muito do ângulo e do momento. E vestidas ficam ainda mais ambíguas; posso acabar confundindo simploriedade com inexpressividade. Uma vista grossa poderá custar-me caro no futuro, pois não terei outra chance. Talvez fosse melhor demorar-me alguns segundos a mais com cada uma e recuperar adiante o tempo perdido, diminuindo o número de classificadas à fase seguinte. Examinando o corpo como um todo, eliminaria desde logo um grande contingente.
Os testes que venho fazendo corroboram com isso, pois nunca alcancei o mínimo desejado de três quartos. Ainda hoje, andando pelas ruas, de um universo de oitocentas e cinco mulheres contabilizadas, escolhi quase a metade. É claro que a movimentação dispersa da cidade não ajuda, além do que as manobras que precisei fazer para não ser reconhecido interferiram na percepção. E o fato de apresentarem-se embrulhadas pelas roupas induz uma observação imaginosa. Quero vê-las nuas, nuinhas, analisar quedas de seios, saliências de bundas, pintas, pelancas, posturas, proporções, tudo aquilo, enfim, que singulariza o corpo de uma mulher. Não existe espírito que não se expresse numa dobra de barriga, num enviesado de mamas. Sei que no início o encanto diante da variedade retardará o andamento, mas a tendência, com a prática, será esfriarem os ânimos e a razão prevalecer. Tenho medo apenas de me deixar hipnotizar pelas surpresas e hesitar no momento da decisão. Algumas me atraem de um jeito, não tanto pela exuberância física, muitas vezes justamente por não tê-la e ainda assim sustentar uma graça, uma sensualidade, que ora desconfio advir do olhar, ora do sorriso, ou da voz, ou de gestos delicados – não estou certo. De resto, são motivos como este que me impulsionam ao trabalho, mas também por isso, pela falta de critérios claros, receio pelo empreendimento.
 Se tiver dúvidas, selecionarei – esta será a minha conduta: diante da ambiguidade, levarei a mulher para o lote final, custe o que custar, mesmo sobrecarregando o trabalho e o sacrifício de todos, inclusive o meu.
Imperador dirigindo-se ao interfone: Camareira, chame o calculista, o ministro, chame todo mundo!
Calculista e outros entrando, com cara de quem foi acordado: Boa noite, vossa...
Imperador: Mudanças: preciso de mais tempo com cada uma, a fim de obter um exame pormenorizado de corpo inteiro e assim reduzir o montante das finalistas a um máximo de dez por cento. Acredito que dessa forma o custo humano e financeiro do projeto diminuirá. Calcule vinte segundos.
Ministro, adiantando-se: V.M. está consciente de que acabará aprisionando o grupo das escolhidas por vinte, trinta anos, até que termine de passar em revista todas...
Imperador, interrompendo: Não será assim, com o tempo meu olho ganhará habilidade, saberei distinguir o certo do errado num segundo...
Calculista, olhando para o ministro: Bem mais, caro ministro; quase meio século... Quando então teria início a seleção final...
Ministro: Por que mantê-las presas? Elas poderiam esperar em suas terras...
Imperador: Em absoluto! Elas precisam ser conservadas, tratadas com todo o cuidado...
Ministro: O senhor acha que as privando de suas famílias se manteriam física e psicologicamente melhor?
Imperador: Apesar da ironia de sua pergunta, me imbuirei de rara paciência para esclarecê-lo. A razão é de ordem espiritual; não vou tocar campainha de casa em casa como se fosse pesquisador do IBGE, tirar a roupinha da dona da casa, elogiar sua beleza, tomar um cafezinho e ir embora. Fosse assim, a mulher e os membros de sua família retomariam seu dia-a-dia, certamente encantados com a visita do Imperador – e a vida continuaria a mesma. Entenda, meu caro: estou convocando meu povo para uma revolução, algo através da qual as relações humanas se transformarão radicalmente em nosso país, e cuja experiência em breve irá se  alastrar por todo o mundo. Não é coisa pequena, ministro, como o tamainho de sua cabeça. Como explicar minha ideia para quem não tem noções mínimas do que seja ciência, arte e religião, nenhum estudo de história, antropologia e psicologia, enfim, tudo aquilo que envolve a dinâmica da criação e os fundamentos da cultura? Você tem conhecimento de alguma obra marcante que tenha sido erguida sem o componente da dor? Sua formação é pobre, você subiu na vida a troco de articulações banais, é mundano demais para me ajudar no projeto. É uma pena que eu necessite de pessoas como você de porta-vozes, por isso me esforço para que ao menos compreenda o básico: a mobilização precisa ser completa, simplesmente porque a obra depende de que todo o povo dela participe e de que cada segmento doe sua parcela de sacrifício; eu, a minha vida, as mulheres, o longo cativeiro, os maridos e familiares, a ausência. Essa separação forçosa é fundamental para a grande ruptura, para o início de uma nova era. Diante do sofrimento agudo, a reflexão amadurece e nos obriga um movimento interior em busca de soluções que por ora nos são intangíveis.
(Pequena pausa.)
Ministro: Envergonho-me de minhas observações e peço que as perdoe; são expressões espontâneas de um homem comum, como V.M. tão bem criticou. Apenas ressalve minha boa intenção...
Imperador: O senhor é um bajulador nato, mas não é mau. Agora chega de conversas e cálculos, vamos à ação. Não é possível prever tudo, nem os obstáculos, nem os atalhos... Contaremos com a ajuda de Deus, é isso o que eu sei.
Ministro: Sendo assim, por onde começar e quando?
Imperador: Faço um pronunciamento amanhã, às seis horas. Deflagraremos o trabalho em seguida, aproveitando já o período da tarde. Acho Minas Gerais um bom estado para o pontapé inicial. Segundo a planilha, nele há cerca de cinco milhões de mulheres dentro da faixa etária estabelecida. Não é muito, mas o bastante para nossa primeira incursão.
Ministro: Senhor, não seria prudente convocarmos antes uma reunião ministerial, para apararmos algumas arestas e certa insegurança que se sente no ar? Seu irmão tem se mostrado preocupado...
Imperador: À noite; não quero perder a luz do dia.





Imperador, em pronunciamento à TV: "Venho hoje conclamar o povo brasileiro para juntos edificarmos a maior obra da história da humanidade jamais sequer sonhada pelo homem em qualquer tempo, em qualquer civilização. Convoco todas as mulheres entre dezesseis e cinquenta anos para que se apresentem às capitais de seus respectivos estados, em dias e locais posteriormente estipulados, a fim de serem observadas de corpo e alma pelo Imperador, que escolherá dentre todas um pequeno número representativo, ou mesmo uma apenas, para futuro matrimônio, amancebamento ou simples amizade com este governante, o que de resto pouco nos importa, até porque distante e imponderável, e sim a experiência em si de encontrar alguma ou algumas e compreender o motivo dessa escolha específica, para então poder traduzir a conclusão minuciosamente em palavras e legar à humanidade a exata definição da essência feminina, se esta houver, ou a verdadeira natureza da indiscriminada atração do homem pela mulher – uma coisa ou outra, se em si ou relacionadas, justamente o que não se sabe. Espera-se com isso amenizar ou mesmo extinguir o eterno conflito entre os dois sexos. Vale ainda ressaltar que as possíveis eleitas virão a ser tratadas, junto de suas famílias, com toda dignidade e riqueza, binômio que sempre caracterizou a nobreza da minha linhagem. Meu coração sinceramente gostaria de acolher todas, porém, diante do impossível, terá de se contentar com aquelas que julgar subjetivamente conterem a totalidade em si. Deseja-se desde já, à extensa maioria de rejeitadas, que não cultivem qualquer tipo de rancor ou inveja, ao contrário, que se sintam orgulhosas por participarem ativamente nessa grande obra e ainda honradas pelo fato do Imperador tê-las conhecido tão intimamente, pois este certamente guardará de cada uma algum vestígio num cantinho de sua memória. Acreditem, minhas amigas, ao amar essas futuras representantes, estarei para sempre ligado a todas as mulheres anônimas do Brasil.
Nenhuma ficará de fora, a exatidão do resultado dependerá da participação integral do contingente feminino. Peço, portanto, a compreensão e o esforço do povo em geral, em especial de maridos ou pais responsáveis, para que alcancemos com rigorosa disciplina o final da obra, abstendo-nos desde já de qualquer uso de força. Aos homens em particular, observo que o objetivo do projeto é restituir a eles próprios e seus futuros descendentes varões o paraíso perdido, para que possamos dar início a uma nova fase da história, em que o masculino enfim se harmonizará definitivamente com o feminino. Grandes consequências disso sobrevirão.
O secretário dos negócios do império dará os detalhes.
Rezem por nós.”



     

Secretário dos negócios do império: “O trabalho será dividido por estados e o primeiro escolhido foi Minas Gerais. Como acabaram de ouvir no pronunciamento de S. M., as mulheres pertencentes à faixa etária enunciada deverão comparecer ainda hoje ao estádio municipal popularmente conhecido como Mineirão, às doze horas, de posse de seus documentos de identidade, os quais serão carimbados com as insígnias imperiais para futuro controle de presença. Quanto ao horário, a tolerância nessa primeira experiência se estenderá até a zero hora de amanhã, contudo somente àquelas que residem a mais de três horas da capital, ou que morem fora do estado. Não há justificativa alguma para ausência – qualquer desobediência nesse sentido será punida com pena de morte. O exército está preparado para ajudar no translado, bem como na manutenção da ordem em todo o território, em especial no estado selecionado, enquanto a aviação nacional estará mobilizada, durante o período estipulado, para o transporte das imigrantes. As polícias municipal e estadual atuarão em possíveis resistências locais, autorizadas desde já a invadirem qualquer residência onde haja a suspeita de uma mulher escondida. Por outro lado, ao menor sinal de assédio ou desrespeito por parte de agentes da organização e segurança perante qualquer mulher, incluindo as prostitutas, será esse elemento punido de forma exemplar, pois estará flertando com alguém a quem o Imperador considera como uma esposa. Temos certeza de que todas as partes envolvidas na manutenção da ordem estarão cientes da importância do bom comportamento.
Previno que as mulheres devem despedir-se de seus parentes como quem se prepara para uma longa viagem, com chance inclusive de ser definitiva. Apesar disso, a bagagem não poderá ultrapassar dezessete quilos. Tão logo sejam examinadas pelo Imperador, as rejeitadas estarão imediatamente liberadas para o regresso, enquanto as selecionadas, cuja previsão inicial gira em torno de dez por cento do total, serão encaminhadas para os polos de recepção, o primeiro deles, até que se atinja a lotação, em Brasília. Nesses alojamentos, essas mulheres permanecerão resguardadas o tempo que perdurar o processo de seleção nos demais estados – preveem-se nesta etapa muitos anos –, quando então uma reavaliação terminal definirá enfim o pequeníssimo grupo de eleitas. Apesar de nos responsabilizarmos pelos cuidados com alimentação, saúde e moradia, adiantamos desde já que as condições do momento são precárias, quase incontroláveis, sobretudo quando se projeta os extremos de chuva, frio e calor. Mas estamos buscando soluções, destinando verbas para o desenvolvimento da agricultura e pecuária, das indústrias têxtil e farmacêutica, convencidos mesmo de que a médio prazo daremos conta da demanda, apostando sobretudo nas regiões onde o homem se achará temporariamente sem suas companheiras e poderá, com tempo disponível, dedicar-se quase exclusivamente ao trabalho.
A apresentação das mulheres deve ser feita sem qualquer acompanhante, dada a dificuldade óbvia de acomodação. Todos os homens, crianças e senhoras residentes em Belo Horizonte, e que não estiverem envolvidos diretamente na organização do evento, serão removidos para o interior – ganharemos assim mais espaço e aumentaremos a mão de obra no campo. Mulheres doentes ou no nono mês de gestação serão abrigadas diretamente em hospitais. Médicos, psicólogos, nutricionistas, cozinheiros, costureiros de todo o país estão desde já convocados para prestar ajuda.      
As mulheres, que adentrarão o estádio em levas de trezentas mil, distribuídas pelo campo e arquibancadas, necessitarão estar de banho tomado, sem maquiagem ou perfume e completamente despidas, inclusive as menstruadas, a quem serão distribuídas toalhas descartáveis para o controle do sangue. Apresentar-se-ão diante do Imperador sem quaisquer trejeitos sexys, extremamente econômicas em gestos e inteiramente mudas – permite-se apenas um sorriso natural. Histerias e rebeliões, incluindo falatórios e ruídos de qualquer espécie, serão punidas conforme o humor da Sua Majestade.
O governo espera que o povo possa distinguir essas restrições, necessárias à manutenção da ordem, do uso opressivo e arbitrário da força. O espírito que deve prevalecer é do orgulho pela construção solidária de uma obra jamais realizada pelo homem, em qualquer tempo, em qualquer civilização, como já foi dito. Se nos conduzirmos com recato e abnegação, seremos capazes de superar todos os obstáculos.
Por hoje é só. Obrigado.”





Imperador entrando pela primeira vez no estádio; ouve-se um ah geral, seguido de um silêncio: Ei-las aí! Uma a uma, umas, em suma, todas! Como um imenso altar barroco em carne e osso... um jardim das delícias de..., estranho, não existe metáfora que..., essa visão por si só já..., e a configuração gerou uma cor, tremeluzente, um tom de..., é isso, a mulher são camadas de bege, de sombra, transparente, impressionista... como pode? feita de carne, mas transparente... E esse cheiro, deixe-me ver, esse cheiro no ar...
General: Majestade, ainda não acertamos o esquema de banheiros, distribuição de comida, coleta de lixo. Vem daí um possível aroma...
Imperador: Não é isso, general. O cheiro delas, dos corpos congregados...
General: Todas tomaram banho...!
Imperador: Não me interrompa! Esse cheiro, não entendo, não relaciono com nada, nunca senti, um cheiro quente, vivo... também aqui me falta uma comparação. Como são lindas! Que imagem! ninguém jamais viu algo semelhante. Quisera ficar aqui assim, assistindo, passar a vida andando entre elas, ziguezagueando, sem pensar... Curioso, meus olhos nem piscam, mas querem fechar-se... Vejo, mas quero sentir... Porém, não vim aqui pra me deleitar, meu trabalho é uma tarefa, não gozo – mande publicar essa observação.
Porta-voz: Está registrada.
General: A fila se estende como uma serpente pelo gramado, e todas estão instruídas quanto ao comportamento e distância ideais. À medida que V.M. fizer a seleção, o exército encaminhará a distribuição; as rejeitadas saem pelos fundos, com seus documentos carimbados, enquanto as escolhidas pelo portão principal, de onde serão enviadas em lotes diários para Brasília.
Imperador: Espero que não troquem as bolas e que as conduzam com toda a delicadeza. Vamos, vamos. Me parece que dispuseram as mais belas no início...
General: Impressão, majestade; o agrupamento é aleatório, tal como ordenado.
Imperador: Não pode ser. São bonitas demais. Não deveria haver seleção alguma, são todas umas... E vejam como os seios se multiplicam, alinhados, dobrados, minimalistas... Pudessem meus braços abraçá-los de vez...
General: O senhor tem razão, majestade, se me permite o comentário.
Imperador andando entre elas, tocando seus corpos, pensando e conversando com algumas: Cada tipo de mama, que graça, mesmo esta pequenina, molinha. Mocinha, você cheira tão bem! que marca é esta? queimadura?... Gosto mais de seio assim, cabe a cara inteira no meio... "Você é fogosa, menina!"... Por que se depilam tanto?  Pele lisa brilha. "Deixe-me ver a bunda, querida, vire-se"; linda, lindas, abundâncias infinitas! "Não levarei a senhora, nem sua amiga, mas não levem a mal, meu critério é subjetivo, vocês têm muito valor e demonstram saber das coisas. Vão com Deus". Que tetas estas, como podem viver escondidas? só pra um, dois, três? vieram ao mundo pra um marido? quando passam vestidas, quem imaginaria um bico tão grande, escuro, tesudo? "Venha cá, você!", quero sentir esta carne, "relaxe, não se assuste", fica feia com medo, "abra a perna um pouquinho", peludona, labiões, "quantos anos tem? está na flor da idade, minha cara, de onde vem? Não conheço. Casada? tem namorado? você é bonita, pena que um tanto retraída. General! trate bem desta jovem, dê a ela um vestido novo e mande fotografar minha primeira escolha. Quero ela na primeira página!"
Ministro: Não demore tanto assim, senhor, são muitas iguais...
Imperador, perdendo a paciência: Não me apresse, você não entende nada, é cego, não sabe o que procuro. Cale-se! Retire-se. Suma daqui! (Continuando o exame): É burro; nasceu pra trair mulher. Não sabe como a luz incide diferentemente nas peles, não atenta para a sensualidade de um cabelo duro batendo em ombro escuro, não se surpreende diante de uma mera xoxota, não sente o bom humor de uma bunda mole. Beleza é matéria do espírito – não tem parentesco com as ideias. E não existe em si; só ilumina fora de si, noutra alma. Por isso, beleza não está no corpo de um, mas na alma do outro. Olhos na alma. Não. Alma nos olhos. Mulher fria, triste, doente não reluz. Esta aqui, por exemplo, mesmo sem maquiagem e nua, é pura perua; "a senhora deve viver na riqueza, não?", se vê, se acha, pensa que é, mas vazia; sua pele veste seu corpo feito roupa. "Dispense".
A natureza é bela, mas não alegra o coração do homem. A mulher sim, foi criada para nós, cada curva, cada cova, qualquer fragmento, tudo é admirável. Não troco a elegância de uma axila feminina por uma flor. O tipo amante da natureza costuma ser triste e desiludido, vive buscando uma harmonia ecológica que aplaque a desordem que tem dentro de si. A mulher não é natureza, é uma morada – nós nunca saímos de seu ventre. Essa é a origem da palavra namorada... "Já amamentou? Quantos? Ainda estão firmes". O homem é bonitinho, mas sem acabamento, a mulher não; todo detalhe faz parte da obra, tudo significa, não existe à toa, pede para ser contemplado, possuído, adorado. "Até logo, nos veremos novamente". Parece que chora, como são tontas! Uau! quem vem lá... neguinhas a granel, uma família inteira! que grandeza de mãe, tinta preta, zangona em menopausa; "são todas filhas, senhora?", mas é você quem me interessa, tetas decaídas, tamanhos surpreendentes, deixe ver: e densas! Mas é brava, macumbeira, não gosto, não quero não: "pode dispensar". Bem... o sorriso; quem sabe sorrir está dentro. Não adianta ser gostosa, se não souber sorrir é amarga, nasceu para fazer sofrer, criar problemas. Calma, não reduza assim, a coisa é complexa, não há fórmulas. "Pode dispensar esse grupo, que Deus abençoe". Olhe lá quem vem – por isso incluo aleijadas; a falta da perna compõe bem, esta mulher poderia ser minha. "Não precisa levantar-se", que beleza, a xoxota fica exposta – nunca tinha pensado nisso –, sem defesa, aberta. "Alguém já tocou aqui? Pois garanto, garota: não sabem de nada. Não se rebaixe a eles, entende? não se diminua, um dia vai encontrar o cara certo. Mas ouça: mister é ser feliz. Vá, vá, boa sorte, e não esqueça o que te disse". Às vezes falta leveza, flexibilidade, definição nas linhas, outras carecem de dignidade – o que não significa que eu despreze as vulgares, mas as ruins de caráter, já que aquelas ao menos são alegres, simplórias, e quando o corpo ajuda não é mau passar uma noite bebendo vinho e fazendo cócegas na barriga, só pra vê-las gargalhando..."O que é isso, tem bosta no chão!"
General: Senhor, nem sempre conseguimos controlar a multidão, os banheiros provisórios estão lotados e parece que há uma virose, não sei...
Imperador: E os médicos?
General: Os poucos que já se apresentaram não estão dando conta. Ainda não alcançamos a dinâmica desejada, dentro de alguns dias...
Imperador ao general, reservadamente: Mas, lá trás, o cheiro vinha de uma mulher...
General, reservadamente: Senhor, trata-se de uma mendiga, não há sabão que chegue...
Imperador, reservadamente: Não acredito nisso, ela tem algum problema. Dispensem-na, mas antes levem-na ao hospital. Quero um relatório posterior sobre o caso. Quanto às fezes, que não se repita sob qualquer pretexto. Não suporto cheiro de merda!
General: Elas se acobertam, protegem-se, é difícil, quando se nota já fizeram...
Imperador: Quem cagar no chão será fuzilada. Entendido? E providenciem um milhão de banheiros. Passe a ordem pelo alto-falante.
General: Sim, senhor.
Uma voz de locutor alerta todo o estádio quanto ao uso dos banheiros e a penalidade estipulada; ouve-se um murmúrio em sinal de protesto; desencadeia-se uma movimentação desordenada de mulheres; o alto-falante exige que se mantenha a ordem; policiais entram em ação e retiram algumas à força; silêncio geral; o Imperador continua a inspeção, mexendo nas mulheres, pensando e conversando: Somos sempre culpados pelos descontentamentos. É preciso melhorar as condições, elas têm razão. "Mulher, gente pura como a senhora me estimula o trabalho. Pudesse ficava só te assistindo. Um dia, quem sabe. General, esta aqui, escolhida, escolhidíssima! Deixe-me beijar sua testa. Fique aqui comigo, me acompanhe mais um pouco por favor." Tento me controlar mas a verdade é que estou ficando remexido, é muito, meu pau dá sinais, e há tanto tempo ele não... não posso, prometi a mim mesmo – mas é duro! Já havia perdido o interesse, a monotonia, a repetição, a obviedade, na maturidade o sexo quer sentido, mas hoje aqui, entre elas, viajando dentro de suas entranhas, e esse cheiro que inebria, "me abracem, me abracem por favor, aproximem-se, aqui, me abracem um pouco", isso, qualquer uma, todas, "me amassem, quanto tempo, meu sangue se renova!", e meu coração volta a bater, dispara, pareço menino, quero beijar aquela índia, "venha cá, querida", o gosto desta saliva..., "pode pôr a mão", maliciosa, gosta, sabe, sabe que sabe, "você também, gorducha, vem, aperta", mas não posso, preciso parar com isso, não está certo, "não solte!", não devo, não me permito usá-las, "onde está a índia? tudo bem, não, não, agora chega, general, chega, menina, general, leve pra Brasília todo esse grupo". O que é que me deu? como pude? Há dois minutos eu era um, de repente uma onda me engole, loucura! me afoga, obceca, arrebata e acaba com tudo. "Não, não esquecerei você, é só esperar; o que quer? não, não vem com essa, me espere." Mulher, mulheres. "General, adiante: dispense, dispense, leve, dispense, leve, dispense, dispense...Vamos logo, esta, não, não..." Estou cansado, atordoado, já não diferencio, preciso de um doce, uma refeição, por hoje basta, à noite ainda tem reunião, chega.  






 

À noite, no salão de recepção do palácio do governo de Minas Gerais, ministros, militares, jornalistas etc. acompanhados de suas senhoras; garçons servindo; Imperador, distraído na janela, olhando para fora, sente às suas costas a aproximação de uma mulher:
A mulher: Como vai o trabalho?
Imperador virando-se, tomado por um tremor no corpo, pensando: Quem é essa? De onde caiu? Deus brinca comigo. Tanto tempo errando na vida, e eis senão quando me aparece uma, esta, ela, no meu nariz, como se fosse natural...
A mulher: Parece cansado...
Imperador, pensando: ...voz que vem direta da fonte...
A mulher: Atrapalho...?
Imperador, pensando: ...olhos que enxergam, distinguem e detectam (reparem os cílios)... inteligência à flor da pele... esfinge. E é real essa ilusão. De onde surgiu...? (Dirigindo-se a ela): Quem é você?
A mulher: Sua cunhada.
Imperador: Mulher do príncipe?
A cunhada: Vamos nos casar em breve.
Imperador: Como não fui informado de nada?
A cunhada: V.M. anda muito ocupado, sem tempo para colunas sociais... domésticas... Acaba se surpreendendo.
Imperador: Nunca imaginei que meu irmão... ninguém me avisou... Desde quando estão juntos?
A cunhada: Foi uma espécie de amor à primeira vista.
Imperador: Meu trabalho me deixa cego...
A cunhada: Gostaríamos que comparecesse ao nosso casamento.
O príncipe se aproxima: Já se apresentaram?
Imperador: Você não me disse nada...
Príncipe: E como poderia? Não nos vemos desde quando? Quantas vezes o procurei...
Imperador, ignorando o príncipe: Bem-vinda à corte, tenho certeza de que meu irmão fez a escolha certa. Também busco encontrar alguém, mas enquanto alguns acham na esquina outros precisam remover montanhas. Vou providenciar para que se realize uma grande cerimônia. Não estarei presente, minhas atividades me impedem – não posso parar um minuto. Mas desejo-lhes desde já toda a felicidade da vida, mesmo que eu não saiba o que significa o que acabo de dizer.
Príncipe: Não contaremos com a sua presença nem tarde da noite?
Imperador: Para mim não existe descanso. Mesmo agora, falando com vocês, estou trabalhando. À noite eu penso. De madrugada eu sonho.
A cunhada, com a tal voz da fonte: Sabemos o quanto está ocupado e estamos a par das dificuldades dessa terrível missão que se impôs. Não queremos atrapalhá-lo, ao contrário, estamos à disposição para ajudá-lo no que for preciso.
Um ministro se aproxima e chama o imperador de lado; mesmo à meia distância, o imperador não tira os olhos da mulher: V.M., quero trocar duas palavrinhas antes de entrarmos em reunião. Pediram-me que vos indagasse quanto às mulheres da corte, se mesmo elas teriam de se submeter ao exame...
Imperador: E como haveria de ser diferente?
Ministro: O senhor quer dizer que nossas mulheres terão de fazê-lo?
Imperador: Muito me admira que ousem supor o contrário. Você não entende? Quantas vezes precisarei repetir? Não entra na sua cabeça? (Falando alto, em direção a todos, que emudecem) Vocês estão encarando tudo isso como brincadeira? Porventura sou de manipular o povo? Acham que sou homem de me aproveitar de mulheres comuns? Pragas! Planadores, ordinários, ignóbeis! E justo aqueles que deveriam dar o exemplo, antecipando-se, colocando suas mulheres na primeira fila, e receber como lisonja o possível fato de escolhê-las – o que, de resto, duvido muito, porque já estão deformadas pelo poder, maculadas pelos preconceitos, mascaradas pelos cosméticos da grana. Apesar do quanto me custa ao aparelho digestivo, preciso examiná-las em nome do todo, uma vez que, mesmo corrompidas, ainda assim não perderam a condição de fêmeas e ainda representam seu sexo, e sempre haverá a probabilidade, se bem garimpadas, de se encontrar em alguma uma fagulha de vivacidade perdida numa curva de cintura, ou um sorriso que preserve vestígios de inocência. Enfim, vocês não me surpreendem; é próprio dessa laia o caminhar na contramão dos acontecimentos, nunca esperei mesmo que alcançassem o sentido da magnitude dessa obra. Pois então se isolem, não encham meu saco, esse povo me ama e posso entregá-los, com suas pavoas, para que lhes comam a bunda!
Um qualquer: Senhor, nem todos aqui compartilham dessa subversão de valores. Eu, de minha parte, ofereço minha mulher neste instante, se desejar.
Outro qualquer: A minha também está à disposição.
Um terceiro: Majestade, nosso ministro foi infeliz em sua colocação. O que alguns de nós propomos, entre os quais me incluo, e caso V.M. concorde, é que a vistoria seja feita entre nós, aqui no palácio, hoje mesmo, se for sua vontade, apenas para que se evite a humilhação e o sacrifício de essas senhoras virem-se obrigadas a hospedarem-se em quartos estranhos, acompanhadas sabe-se lá por quem, comendo da má comida, vestindo do mesmo vestuário, enquanto esperam – o que será pior– o dia de entrarem inteiramente nuas no estádio e ali permanecerem por um tempo indeterminado, faça sol ou faça chuva, aguardando o momento de exporem seus atrativos. E, a bem da verdade, como prevemos, serão elas especialmente observadas todo o tempo, não por V.M., mas por qualquer oficial menor, moleques do exército, que divertir-se-ão com o espetáculo do constrangimento, fofocando e disseminando, inclusive a jornalistas – e, neste particular, será inevitável um comércio clandestino de fotos –, sobre detalhes íntimos das mulheres dos chefes de estado, desde de como lhes caíram mal ou bem tal silicone, até a presença de brotoejas nas nádegas, coisas assim desagradáveis que nos custarão a honra no futuro.
Imperador: Não haverá concessão alguma e não me estenderei mais em explicações; sei com quem estou lidando, vocês sempre reprovaram o projeto e se puderem sabotar a mim e ao povo o farão sem hesitar. Por isso, não perderei com vocês nem mais um minuto. Quero todas lá, no meio da multidão, iguais, como massa, para eu sentir o cheiro. Vou avaliar essas damas pelo olfato – esta é a única concessão que faço e a esperança que dou a vocês. Agora chega desse entojo e vamos à sala de reunião. Os acompanhantes estão dispensados. Acabou a festa!


 




Imperador dirigindo-se à sala de reunião, ao lado da cunhada:
A cunhada: Não sei se participo da reunião ou...
Imperador: Sim, sim, não quero mais perdê-la de vista. Você já faz parte da família. Venha e fique ao meu lado.
Todos sentados, o Imperador: Gostaria de passar a limpo qualquer dúvida ou divergência que ainda persista, já que hoje me afasto definitivamente do meu posto – aqui se dissiparão meus últimos minutos dispensados às ladainhas políticas. Que todos se expressem livremente, como sempre o fizeram em nosso governo. De início, quero comunicar-lhes que meu irmão assumirá o comando do Império, com poderes absolutos para quaisquer deliberações, com o que pretendo me eximir de todo o emaranhado de problemas rotineiros. Cuidarei doravante apenas daquilo que for pertinente à obra, sejam providências ou consequências. Quando, ou mesmo se um dia houver para ela um desfecho, recobrarei meu lugar, que a mim pertence vitaliciamente. É do conhecimento geral que a economia do país estará voltada para o projeto, pela próxima década ou além. Com as sobras de divisas (e não há de ser tão pouca como se tem insinuado) governar-se-á a nação. E meu irmão está qualificado para assumir tal responsabilidade, pelo que não me preocupo.
Príncipe: Mano, já venho governando há muito tempo, desde que enfiou esse projeto na cabeça...
Imperador: Pois agora oficialmente. E haverá de se esforçar em manter a dignidade do nosso nome, cuja descendência está intrinsecamente ligada à história desse país. Porque sempre nos conduzimos de forma verdadeiramente justa e humanitária – e isto ninguém nega. Daí o amor com que nosso povo nos celebra.
Príncipe: Mas nunca corremos tanto risco de uma guerra civil. Você parece querer não se informar quanto à gravidade dos acontecimentos ocorridos somente nesse primeiro dia: há focos de rebelião em todo o estado de Minas, grupos armados enfrentam a polícia, homens desesperados matam e morrem para defender suas mulheres, e nos chegam informações de casos de suicídios de famílias inteiras. Nos demais estados, já se organiza uma forte oposição de resistência, ainda que clandestina. Mano, é melhor abrir os olhos.
Imperador: Repressão e amor. Preciso explicar o que digo? Sendo assim, três dias para encerrarem-se os distúrbios. Morte aos líderes, perdão aos exaltados e, sobretudo, muita paciência e generosidade para com a maioria, mesmo quando esta toma partido dos inimigos. Os meios de comunicação devem repetir à exaustão a intenção e a mensagem do trabalho. Se o povo não entender o fundamento, como haverá de cooperar? Para isso a repetição é necessária. Mas cuidado com enunciados monótonos ou discursos genéricos; usem uma linguagem direta. Depoimentos e análises de filósofos, poetas, historiadores e cientistas ajudarão sobremaneira na elucidação do sentido maior do sacrifício e do seu significado histórico.
Um ministro: V.M., se bem ouvi..., o senhor falou em matar...  Nunca foi do nosso feitio, seu pai sempre condenou...
Imperador, interrompendo: Nem do meu! Mas vivemos uma revolução, compreende? Esta é uma época de exceção. Meu pai nunca mandou matar ninguém, mas herdou o trono do meu avô que para assegurar a ordem e impor um novo sistema, justamente esse que ora desfrutamos, levou a nação à maior guerra civil de nossa história. Depois foi fácil para meu pai e eu governarmos com suavidade.
Príncipe: Nossos ancestrais lutaram contra a decadência de uma classe política reacionária, um poder econômico elitista e uma igreja conivente com...
Imperador, interrompendo: Cale-se, irmão. Espero de você maior discernimento. Cada época luta pelo seu destino. As guerras não são iguais. Se você não consegue diferenciar as particularidades de dois momentos históricos, temo pelo futuro da nação. É melhor você pensar um pouco antes de falar bobagem.
Príncipe: Posso me calar, até porque de nada adianta argumentar com você. Mas antes quero fazer uma declaração oficial, para que no futuro não sinta culpa se me vir obrigado a traí-lo: não deixarei que seus desvarios destruam a aliança arduamente construída por quase meio século entre nosso povo e sua classe política, aliança esta que é responsável pelo bem-estar e alegria que caracterizam a vida em nosso país. Farei aquilo que minha consciência julgar necessário, desde que represente a opinião da maioria.
Imperador: Opinião da maioria. Bonito isso. Aprendeu na faculdade? Pela opinião da maioria não haveria nem a própria diferença de classe. Você e seu pequeno sobrado onde mora, por exemplo, não existiriam... Como se mede uma quantidade de opinião, com todos os atenuantes? É provável que, se o povo fosse efetivamente consultado, o resultado seria a favor da absoluta ausência de qualquer governo, já que é certo que a maioria não se satisfaz com nada nem com ninguém. E Jesus foi unanimidade?  E Van Gogh? E quanto à luta de Martin Luther King, para ficarmos num exemplo mais humano? Se quiser um exemplo caseiro, dentro de um mísero lar, numa pequena sociedade familiar e por isso mesmo aparentemente controlável, qual a opinião dos filhos adolescentes quanto a seus pais? Já imaginou os pais agindo segundo o desejo da maioria dos filhos?
Príncipe: Mano, você precisa se tratar. Para mim chega.
Imperador: Você sempre foi impetuoso, mas vai envelhecer. Enquanto esperamos que isso aconteça, gostaria de ouvir, da minha futura cunhada, o que pode nos dizer como única mulher aqui presente, e por isso mesmo representante do outro lado dessa querela – e que o faça sem censura.
A cunhada, com a voz doce de sempre: Uma mulher não pensa no todo, com interrogações do tipo "de onde viemos, o que somos e pra onde vamos", como reflete o homem. A questão que tanto o atormenta é intrinsecamente masculina, está fora do nosso alcance, por isso não posso julgar. Do ponto de vista concreto e imediato, estamos simplesmente sendo usadas ao máximo da humilhação, feito bonecas infláveis para o sonho desmesurado de um imperador que amamos. Mas é curioso: esse seu olhar entristecido, sua beleza estarrecedora e sua incontestável bondade – além da forma maiúscula com que sempre exerceu o poder –, fez de você, simetricamente, o objeto de desejo igualmente impossível para nós. Talvez seja essa a razão pela qual seu projeto megalomaníaco tenha encontrado certa ressonância entre as mulheres. Sei de casos de mulheres que dentro de seus lares fazem cenas de desespero, mas que, entre amigas, trocam fuxicos de excitação. Não é pouco para a nossa vaidade ser observada a nu pelo imperador. Mas raras são as que alcançam sua intenção em profundidade, e quem dentre nós a vislumbra e lhe é solidária enfrenta a resistência dos maridos – e precisa dissimular. Eu, particularmente, apesar de me identificar com o naturalismo feminino e de não ir além do evidente, confio em V.M., pois confio no ser masculino. Se não fossem vocês, homens, estaríamos todas ainda confinadas nas cavernas. A mulher nunca entendeu o movimento do homem, mas sempre o seguiu. É o que venho fazendo.
Imperador atento, embevecido, apaixonado: Há muito não ouvia nada tão belo... (Pensando:) Voz , gestos, olhar, decote – nenhuma dissonância; nem um fio de cabelo em contradição com o todo... (Falando:) Então você acha que as mulheres me amam como homem?
A cunhada: O Senhor encarnava o ideal masculino para nós.
Imperador: E não mais?
A cunhada: Ainda sim, é evidente, mas suas contínuas preocupações vêm impregnando sua face de traços melancólicos e arqueando sua postura altiva. Não assistimos mais àquele imperador que cruzava as avenidas no alto de seu corcel dourado, sorrindo e acenando para a multidão que se aglomerava nas calçadas para vê-lo de perto...
Imperador: Todos nos deparamos com a idade...
A cunhada: Não creio no peso dos anos, até porque não seria seu caso. Sua aura, sim, parece envelhecida – a circunspecção mina a sensualidade. V.M. sabe: o que mais no homem atrai uma mulher é o vigor do ser, não o ser reflexivo.
Imperador: Isso tudo me aflige, mas não vejo saída senão atingir o fim. Só depois de compreender a mulher (ou mulheres, não sei), defini-la em si e como reflexo de todas, minha alegria poderá voltar, e a inocência, e a simplicidade. Sem essa confluência do feminino, esse cerne do cio, não tenho ânimo para a vida.
Príncipe: Você já conheceu tantas, experimentou quantas quis e nunca se satisfez...
Imperador, entristecido: Muitas, muitas, mas a cada vez a seguinte distanciava-se um pouco mais. Foram ficando longe, chegou o dia em que não conseguia me interessar... Até perceber que o problema não era eu nem meu, simplesmente meu ser estava travado pelo eterno e infernal dilema masculino, e então compreendi, pelo poder que tenho nas mãos, que meu destino não era outro senão buscar a solução ao mesmo tempo individual e universal do caso. Sei que minha pesquisa terá de limitar-se ao perímetro de um país, e que por isso deixará margens para dúvidas – mas a tarefa de um grande homem deve se limitar a iniciar, como puder, a sua obra.
A cunhada, consternada: V.M. há de achar...
Um ministro, consternado: Nós ajudaremos.
Príncipe: Mesmo que venha usurpar a mulher de alguém?
Imperador: Basta-me colher o fruto, saber que existe, e quem é, ou são. Se não houver reciprocidade, se o coração tão arduamente escolhido tiver dono, e ela gostar de continuar escrava desse dono, se o que eu posso oferecer não for o bastante, o que fazer? Prendê-la? Fazê-la infeliz? Nunca. Despeço-me da minha di-amante, levando comigo a satisfação de ao menos haver conhecido a mulher. Mesmo de passagem. Mesmo por uma pequena hora. Vejam bem, minha gente: não estou atrás do amor, este eu não ponho dúvidas de que exista – há depoimentos sinceros nesse sentido. Estou em busca somente da plena afinidade. Não sei se o amor viria junto... talvez...
A cunhada: Conhecê-la é amá-la!
Imperador: Não sei. E se forem duas, ou doze? O amor depende do outro... Se forem muitas, bastaria uma delas me deixar para que se perdesse a totalidade... Isso pra mim não está claro... Não sei, não conto com qualquer recompensa... embora chegar ao fim já seja uma grande realização...
Um ministro, comovido: Não há perigo algum. Aquela que tiver a honra de ser a escolhida do nosso imperador jamais pensará num outro qualquer. Disso temos certeza!
Imperador: Preciso me recolher, não me sinto bem. Resta ainda alguma questão relevante?
General: Majestade, só mais um detalhe. O trabalho mal começou, e a tropa, assim como os demais envolvidos na infraestrutura, já manifestam um certo desconforto. A senhora futura princesa me desculpe o modo grosseiro de falar, mas não terei outra oportunidade de expor o caso ao nosso imperador.
Imperador: Vamos, fale logo.
General: Senhor, como faremos para saciar o desejo sexual dos homens que participam da operação? Com tantas mulheres à disposição, sem poderem tocar em nenhuma... Sem contar a provação aguda daqueles que trabalham diretamente dentro dos estádios, dispondo de cá pra lá aquele mundo de corpos nus – a tentação, tomando por base a experiência de hoje, será enorme. Adianto a V.M. que já precisamos deter mais de duas dezenas de soldados por prevaricações impertinentes...
Imperador: Fuzile-os amanhã, ao meio-dia, em praça pública. Estarei a seu lado, assistindo. Que graça, que problema! Sabe há quanto tempo não deito com uma mulher? Eu, o seu imperador? E esses porcos, no primeiro dia, já necessitam... Fuzile-os. Se estivessem na guerra, como fariam, hein, general? Ora! Que se masturbem, comam a bunda uns dos outros, saiam do estado em dia de folga, mas não toquem nas minhas mulheres! Até porque seus pais e maridos confiaram-nas a mim e eu retribuirei oferecendo-lhes a máxima segurança.
General: Desculpe-me senhor por minha impertinência, mas há casos, e sei que se repetirão, em que as próprias mulheres, até porque solteiras, investem contra os homens, seduzindo-os de tal forma que a situação se torna incontornável... Não seria melhor tolerar apenas...
Imperador, interrompendo: Nunca saberíamos avaliar quem começou o quê. Se as mulheres também não se portarem convenientemente, serão punidas juntamente com seus parceiros.
A cunhada: Não seja tão intransigente.
Príncipe: Isso acabará por acontecer na moita, não adianta...
A cunhada: Numa guerra de verdade, os homens estão longe das mulheres, e viram-se como podem. Nesse caso é diferente, homens e mulheres estão muito próximos uns dos outros, não há como evitar a atração. Seria mais conveniente criar uma válvula de escape...
Imperador: Válvula de escape... não podia ter encontrado uma expressão mais sensual e adequada para esse contexto. Sua boca, minha cunhada, pronunciando “válvula”, enquanto seus olhos caiam ligeiramente envergonhados, como se percebessem a ambiguidade sonora, convenceram de imediato este imperador – que, como todos sabem, dificilmente muda suas decisões. Quando a linguagem acerta, o argumento é verdadeiro. Quem dera minha corte soubesse expressar-se dessa forma!
A cunhada: Agradeço os elogios, mas não concordo que falte preparo para sua equipe. V.M. é que vem se tornando um tanto intolerante...
O príncipe, completando: ...rabugento...
A cunhada: ...com seus pares. Nesse estado de tensão, acaba tendo um colapso qualquer hora. Precisa relaxar. O senhor nos relata (era já de conhecimento de todos) que há tempos não dorme com uma mulher, pois acho que deveria ser menos intransigente até consigo mesmo. Isso não é natural. Ainda mais no meio delas, daquela forma...
Imperador: Eu sei, não será fácil. Ainda hoje hesitei no estádio... todo mundo viu... Um trabalho que envolve tamanho grau de intimidade requer um severo autocontrole. E você sabe bem disso quando vai ao ginecologista. Boceta pra ele é fechadura – e está certo. Mas concordo com o teor daquilo que objetam, e se minha conduta me obriga a jejuar no carnaval, meus homens não precisam me acompanhar. Fica assim estabelecido: faço do Parque do Carmo, enquanto perdurar o trabalho, um lugar livre para encontros íntimos. Em seu interior, por entre suas alamedas, o sexo está liberado para casais que ali adentrarem de comum acordo – que deixem nome e R.G. na portaria, assinem um “de acordo” qualquer, para que evitemos futuras queixas. Proíbe-se, impreterivelmente, o concurso de indivíduos desacompanhados à procura de parceiros; dessa forma saberemos que os usuários se responsabilizarão pelo que estiverem fazendo. E que não esqueçam esse detalhe: ajudem a manter o parque limpo de papéis higiênicos e camisinhas, pois não há nada mais nojento que sinais de sexo amanhecido no meio das folhas caídas.
General: Passaremos as instruções.
Imperador: Que cochicho é esse?
Um ministro: Desculpe-me, senhor, estava brincando com meu colega.
Imperador: Sobre o quê?
Um ministro: Bobagem, não vale a pena...
Imperador: Para você considerar bobagem, deve ser de sumo interesse. Vamos, estamos curiosos.
Um ministro, envergonhado: Desculpe-me, é que nosso nobre companheiro reside em Belo Horizonte, portanto terá de se contentar em encontrar-se intimamente com sua esposa dentro do parque...
Imperador, dirigindo-se ao segundo ministro: E sua casa já foi confiscada? Pois saia de lá imediatamente, porque precisamos de espaço para hospedar as imigrantes. Você deve procurar vaga nos alojamentos masculinos, já que trabalha na corte e não pode ser transferido para o interior.
Segundo ministro, sem dirigir o olhar para o Imperador: Sim, Majestade.
Imperador: Agora chega. O que foi dito nesta reunião, palavra por palavra, que seja publicado amanhã no Diário Oficial. Boa noite.





Ala residencial do palácio, começo de madrugada. Imperador dirige-se, por largos corredores vazios e mal iluminados, ao cômodo de seu filho. No caminho encontra a cunhada saindo de um quarto, vestindo um penhoar transparente sobre uma camisola branca:
Imperador: Não esperava a ventura de vê-la mais uma vez – este dia não termina! Quando chegou a Minas?
A cunhada: Hoje, com a corte.
Imperador: Onde moram?
A cunhada: Na sua casa, no palácio real.
Imperador: Como é possível nunca termos nos encontrado?
A cunhada: O senhor vive trancado em seu quarto, não tem ideia do que se passa em sua casa. Deve estar à procura de seu filho...
Imperador: Sim.
A cunhada: No fim do corredor, última porta.
Imperador: Eu sei. E você, aonde está indo?
A cunhada: Para meu quarto. Este é do seu irmão.
Imperador: Vocês não dormem juntos?
A cunhada: Não.
Imperador: Vocês se dão bem?
A cunhada: Muito bem.
Imperador: Está mentindo?
A cunhada: De forma alguma; mas, caso estivesse, por que haveria de lhe dizer a verdade? 
Imperador: Não sei... talvez para me ajudar a entender como uma mulher consegue andar de salto alto na superfície de um lago...
A cunhada, perdendo qualquer formalidade: Eu não entendo o que tanto você espera da mulher. Estou aqui, cara a cara, sou uma, vamos, pergunte tudo o que quiser, tenho certeza de que saberei responder.
Imperador: Sua xoxota está melada de porra?
A cunhada, surpreendida: O que te interessa isso?
Imperador: Você prometeu responder. Você está de calcinha ou a porra escorre nesse instante pelas coxas? Ou será que enxugou com papel ou costuma se lavar? Ou nem sequer teve relação com meu irmão essa noite, o que acho improvável, pelo seu jeito lânguido?
A cunhada: Sua sensibilidade com mulheres é mal aproveitada...
Imperador: Está melada?
A cunhada: Você é chato!
Imperador: Foi você quem me permitiu.
A cunhada: Eu enxuguei.
Imperador: Com o quê?
A cunhada: Fiz xixi e me enxuguei – parece que nunca viu!
Imperador: Me interessam as variáveis. Você vai dormir com o cheiro ou se lavar?
A cunhada, irritada: Não pretendo me lavar!
Imperador: Gosta do cheiro da porra amanhecida?
A cunhada: Mas que chato! gosto, pronto! O que você aproveita disso?
Imperador, já a caminho do quarto do filho: Contabilizo.


 



No quarto do filho:
Imperador: Como vai meu menino?
Filho: Eu sei o que te traz aqui. Não tenho conseguido controlar adequadamente...
Imperador: De forma alguma...
Filho, interrompendo: Acontece que não há outro assunto nos meios de comunicação, o que multiplica em muito o volume das revisões. Desde que começou esse rebuliço, está difícil separar o certo do errado.
Imperador: Você faz um trabalho maravilhoso, mas precisa de ajudantes. Escolha pessoas em quem possa confiar e forme-as. Quando tiver dúvida, consulte seu tio, ou me procure no estádio...
Filho: Pai, entre a verdade e a falsa verdade – como você gosta de diferenciar – há nuanças que me confundem. Às vezes, num mesmo artigo encontram-se as duas formas.
Imperador: Censure aquilo que apontar a sua intuição. Peça para o jornalista ser mais claro quanto ao que quer dizer. Se ele não estiver de má fé, vai corrigir. Só não seja conivente com opiniões. O povo não está interessado em palpites e sim em se inteirar do que acontece, somente. Quanto ao fato em si, seja ele a favor ou contra seu pai, não deve incidir nenhuma ressalva. Se uma centena de mulheres foi vítima de insolação, como anunciado hoje, nada podemos fazer senão admitir o erro e indenizar as vítimas. Mas opiniões, jamais – mesmo as elogiosas, você sabe. Opinião é ego, serve como passatempo em roda de bar...
Filho: Eu sei, pai, você repete isso mil vezes. Mas quando se depara com um texto onde se lê, por exemplo, "todos os cálculos apontam uma duração acima de trinta anos até o término do trabalho" etc., e que você não sobreviverá para isso etc., eu pergunto: isso é fato ou opinião? Não me parece errado, mas cria pânico na população.
Imperador: Esses jornalistas trocam a minha subjetividade, de acreditar piamente na obra, pela deles, céticas. Eu tenho o direito de ser subjetivo no que faço, já que sou o criador e a subjetividade é própria da arte, mas quem analisa precisa ser objetivo. Não digo a jornalistas – caso assumisse o papel de criticá-los – que, “haja vista a forma com que escrevem, tornar-se-ão decadentes dentro de oito anos”, pois não sei – o serem ignorantes hoje não impede que amadureçam com grandes méritos amanhã. Por isso, só posso avaliá-los segundo o conteúdo de um artigo em si. Eles são Deus? Quem sabe o quanto vou viver? Quem pode antecipar por quais veredas minha obra vai entrar? Ou mesmo imaginar o tamanho do percurso? Se um jornalista diz: “o trabalho desse dia esteve abaixo do esperado, porque o imperador mais uma vez se distraiu com a beleza de algumas etc.”, está certo – é uma crítica objetiva. Ou: precisa melhorar as condições de higiene, alimentação, conforto, segurança... Mas especulações... O fim que o artista vislumbra nem sempre corresponde ao resultado concreto. A própria muralha da China, única obra comparável em grandeza com a minha, nunca foi concluída, mas seus fragmentos não bastam para sonharmos? O fracasso a fez menor? O artista esboça o que o destino de fato realiza. Censure esses artigos, são todos falsos. Mas, repito, nunca impeça que nenhum detalhe fatual chegue ao conhecimento do povo.
Filho: Minha mãe disse que poderia me ajudar e eu desejo tê-la mais perto...
Imperador: Quem é mesmo sua mãe? Você nunca me falou dela...
Filho: Não te interessa. Quero apenas permissão para contratá-la.
Imperador: Não fique bravo, só não me recordo. É uma boa mulher?
Filho: Ótima. E o que importa é que eu gosto dela.
Imperador: Pois um dia me apresente. Se você confia nela, não vejo motivo para não convidá-la. Só não me traga problemas.
Filho: Tem outra coisa: por azar, ela é mineira e...
Imperador, interrompendo: É melhor não completar o que ia dizer. Não quero brigar com meu filho.
Filho: Pai, tenho medo de me voltar contra...
Imperador, interrompendo: Confie em mim.
Filho: É minha mãe, não posso...
Imperador, retirando-se: Boa noite e descanse. Você é a minha única alegria real. Se eu desaparecer, me procure.
                          




Fragmentos dos dias subsequentes, dentro do estádio:
Quinto dia, imperador passando em revista, falando e pensando: "Sente-se naturalmente, minha linda; agora se deite; abra um pouco, assim; está bem, vá com Deus." Como dá preta em Minas! Não gosto de mulher arqueada – tem vergonha de si mesma. Ah, gordinhas! como são bonitinhas... mas precisam de seios, sem seios parecem barris. "Leve esta". Garotinhas não têm sal. "Olhe pra mim, por que não levanta a cabeça? ah, é religiosa! você nunca imaginou que um dia fosse passar por isso, não é? casada? quantos filhos? pode falar com a boca. Sua religião não lhe permite olhar, falar, rir? e amar? você ama seu marido? de coração? Para mim você nunca amou, moça, é fechada, medrosa e egoísta. Essa coisa ruim no seu ser vem de longe, e continuará assim por muitas gerações – sua família não foi boa consigo, tampouco você é com seus descendentes. É pena, mas quero lhe dizer, se é que me ouve: seu corpo ainda tem graça. Vestida, você deve ser daquelas que vagueiam de preto pelos cantos das calçadas, de cabeça baixa, pensando mal, praguejando o mundo – gente assim não toma banho. Mas escute: você se desperdiça; é jovem, sua pele é bonita, tem um belo par de coxas e mesmo essa flacidez, se houvesse alegria, harmonizar-se-ia com o todo. Vá embora, não quero nada contigo, mas fico triste quando vejo alguém assim".
No dia seguinte, falando e pensando: Dia nublado, graças a Deus! "General, hoje me sinto leve, vamos brincar um pouco; ponha de quatro as próximas quinhentas, quero examiná-las por trás." Existem ângulos fabulosos, por isso tenho comigo que, sob determinado ponto de vista, e conforme lhe incida a luz, toda mulher vive um instante de “a mais bela do mundo”! (Risada geral no estádio diante da cena das mulheres de quatro, logo reprimida pelo alto-falante). Que desbunde que fica um bando de bundas! "Peça que se desencostem umas das outras e que não se voltem para mim. Não quero ver a cara. Agrupem as escolhidas num lado, mas não as levem embora, que em seguida precisarei reexaminá-las de frente e comparar o julgamento." Bunda bundas bunda bundas, quanto tempo não como vagabundas! "Não olhem." Este cu dá que dá, tenho certeza. "Não grita, amor!" Cheiro profundo, ancestral. Mas as bocetas estão tão secas! Queria, quero esta; bunda mãe, bunda dura, bunda elíptica. E por que não? Minha cunhada está certa, preciso relaxar, divertir-me um pouco. Sou muito severo comigo, acaba que tudo fica amargo. Essa dona bundona é o canal. De fato, ando me tornando carrancudo. Será que a beleza do homem também se deforma? É óbvio que sim, apesar de não haver maiores implicações. Mesmo assim, é desagradável ouvir de uma mulher, e justo de quem, que venho perdendo a magia. Essa bundaria me atiça – esta aqui é demais. Quero; mas não sei se consigo, faz tempo... Desde que pus essa ideia na cabeça, travei, brochei, mas meu pinto está pedindo, se ela aceitar, poderia tentar – na marra não. "Quer dormir comigo no palácio? Não me olhe! Quer? Diz isso por medo ou desejo? Então aguardo. General, conduza essa mulher para meus aposentos essa noite."
General: Apesar de não ser de minha alçada, recordo-lhe que S. M. proibiu qualquer relação sexual fora do parque. Pode pegar mal...
Imperador: Eu sei, o senhor tem razão, mas se o imperador fizer uso do parque haverá um constrangimento geral, os casais vão parar as atividades, ficarão à espera ou à espreita...
General: Não se preocupe, daremos um jeito, ninguém precisa saber...
Imperador: Isto não, não sou de fazer nada sorrateiramente. É a minha condição de imperador que se impõe. E a princesa tem razão: preciso desafogar...
General: Quanto a isso não tenho dúvida...
Imperador: Além do mais, uma multidão poderia aglomerar-se nas grades, causando tumultos de toda espécie. E não há quem faça sexo com torcida... Necessito, a bem da verdade, de uma norma. Anote: O imperador se dá o direito de fazer sexo em seus aposentos com quem bem lhe interessar, quantas vezes achar necessário, por motivos óbvios. Ponto. Complete ainda: Tentará ser comedido e discreto, para não abusar de sua autoridade. E mais: Seria por demais demagógico querer se portar como povo quando não o é, pois que se assim fosse nem usufruiria sua liberdade específica, nem se conduziria dentro das limitações de seu posto. Agora sim: pronto!
General: Confesso não ter entendido a fundo a mensagem, mas está registrada. Quanto a sua escolha, sei que nada posso comentar; levarei aquela senhora à meia-noite.
Oficial contabilista: Trezentos e trinta e sete, sim; duzentos e setenta e três, não.
Imperador: Vejam só! se a seleção fosse feita por trás, desequilibrar-se-iam as estatísticas... Deixe-me primeiro rever as rejeitadas. Podem virar-se. Ora, não pode ser, muitas são aproveitáveis, que contraste! Quem vê bunda não vê coração, eu diria. Vocês riem... Senhoras, ouçam-me: não fiquem traumatizadas por terem o bumbum malquisto por esse imperador – não deem bola para meus critérios. Todos os traseiros são graciosos; na verdade, trata-se de uma nobre região que raramente falha numa mulher. E para lhes provar que não faço média, verão como hei de escolher várias dentre vocês. Certo? Agora estou curioso em conhecer o outro grupo. Oh, Deus, que desastre! Temos de refazer tudo...


 
 


        
À noite, imperador como sempre atormentado, sem poder dormir. Toca o interfone:
Secretário: Majestade, o general.
Imperador: O que ele quer?
Secretário: Está acompanhado de uma senhora.
Imperador: Como?
Secretário: Diz que trouxe a moça, mais nada.
Imperador: Deixe-o entrar.
General, entrando no quarto: S. M., aqui está a mulher.
Imperador, lembrando: A da bunda... entre.
A mulher entrando, deslumbrada com tudo: Dá licença.
Imperador, pensando e falando: Onde estava com a cabeça? Como pude convidar uma delas numa época como essa, em que ando tão ocupado, tão cheio de dúvidas?... "Fique à vontade". E ainda, a coitada é feia que dói... "Obrigado, general, pode ir".
Ela, olhando para tudo: Como é chique o palácio!
Imperador: A senhora vem de onde?
Ela: Sou de Monte Azul.
Imperador: Não me recordo se a senhora acabou sendo escolhida...
Ela: Não fui, não senhor; foi só o traseiro.
Imperador: A senhora deve ser muito pobre.
Ela: A gente vive como pode, como se diz...
Imperador: Se quiser ir embora, descansar, não se acanhe. Estou muito agradecido pelo seu comparecimento...
Ela: O senhor nosso imperador não quer mais?
Imperador: Não quis dizer isso, a senhora é bem jeitosa; me preocupo somente em não magoá-la, entende? É casada?
Ela: Tenho duas meninas e dois meninos.
Imperador: Gosta de trepar com seu marido?
Ela: Ave! Não sei o que o senhor pergunta, não sei mesmo não. A majestade quer que eu tire o vestido?
Imperador: Não, não, fique assim. Tenho visto tanto corpo nu que prefiro a senhora vestida.
Ela: O senhor nem quer mais...
Imperador, pensando: Estou ferindo essa mulher...
Ela: O senhor tinha gostado do traseiro preto...
Imperador: Gostei muito, sua bunda é linda.
Ela tira a calcinha, arregaça o vestido e põe-se simplesmente de quatro sobre o tapete. O Imperador olha, sem saber o que fazer. Passeia a mão pela bunda da mulher, distraído, pensando e falando: Preciso me concentrar, não tenho saída. Seria até bom meter, mas o pau não obedece. "Gosta quando enfio o dedo?" Por que não consigo mais? Noutros tempos, funcionava no buraco de qualquer uma. É o trabalho. Mas ela também não ajuda, parece um bronze... "Gosta assim?"
Ela: Eh!
Imperador levanta-se e retorna com um falo de vidro, que enfia vagarosamente no cu da mulher, enquanto se masturba.
Ela: Eta!
Imperador: Não vou machucá-la, relaxe... é bom? assim,  isso... gostoso, mexa um pouco... isso...
Imperador se excita, mas não tem ereção; enfia freneticamente o objeto na mulher, sua muito, mas não goza; desiste e se estica esgotado no chão; ela continua imóvel em sua posição.
Imperador: Pode se arrumar.
Ela: Cada coisa que gosta a majestade...!
Imperador: Boa sorte, senhora, obrigado, pode ir.
A mulher, já em pé, não se move. Imperador se levanta.
Imperador: Obrigado, senhora, pode ir!
Ela: Se o senhor puder com uma gratificação, qualquer coisa, minha menina não está nada boa...
Imperador, interrompendo: Se eu lhe der uma recompensa, vai parecer que paguei...
Ela: Necessita não, não senhor, se preocupe não, só se quisesse...
Imperador, sem saber o que fazer: Está tudo errado, dona, vai embora...
Ela, interrompendo: O senhor não gostou...
Imperador: Não é isso, errado sou eu, não era para ser assim... Adeus, senhora, boa sorte.







Novos trechos, dentro do estádio:
Décimo terceiro dia; as mulheres agarram o imperador, como se quisessem beijá-lo:
Imperador: General, o que está acontecendo?
General: Elas já perceberam que V.M. não gosta de mulheres escandalosas e acaba dispensando...
Décimo quarto dia:
Imperador: General, isso aqui parece um velório, todas estão tristes, cabisbaixas...
General: Senhor, elas já perceberam que V.M. não gosta de mulheres tristes...







 
Pronunciamento do imperador no alto-falante do estádio, transmitido pela TV: “Vocês não têm sido honestas comigo e não me resta outra alternativa. Ante a sabotagem, punição. Talvez fosse ingenuidade minha acreditar que minha obra pudesse ser compreendida pela maioria da população. Fiava-se, a minha esperança, na relação de amor e devoção solidamente construída entre o povo e este imperador. Imaginei que, sendo o vínculo verdadeiro, pela fidelidade a esta pessoa amiga, vocês acatariam e aceitariam de coração aberto uma convocação como a que fiz, mesmo radical e sacrificante. Sempre tive a crença de que, quando se acredita num líder, como outrora nós confiamos em meu pai, simplesmente se segue seus passos com obediência, mesmo se nos escapa o alcance da ordem. Porque um líder, se o é de fato, fez por merecer seu posto através de uma conduta altruísta e dedicada. Porém, nada disso vem ocorrendo entre nós, nesse grave momento por que passamos. Muitas dentre vocês esqueceram tudo o que lhes foi ofertado em mais de duas décadas por mim, no meu governo, e agora agem pensando somente em si mesmas e nos seus, abdicando de qualquer espírito altruísta para com um trabalho de abrangência universal, para o qual eu anteriormente contava, ao inverso do decorrido, com uma eclosão de euforia e patriotismo originários do orgulho de tal obra desenvolver-se em nosso país, em nosso tempo, através de nossa gente, fruto do nosso esforço. Não. De nada lhes importa que a imprensa de todo mundo esteja mobilizada em torno de nós, não, impulsos mesquinhos e egoístas lhes valem mais, e o que se deseja somente é o pronto restabelecimento das mesmices ordinárias do cotidiano. Querem logo regressar ao lar, mesmo que seus casamentos sirvam apenas de lenha para o inferno. Querem voltar à possessão dos maridos, pois sentem falta do velho bafo do ciúme, do velho mofo do suor, do velho nojo do tédio. Estão ansiosas para voltar a receber e retribuir ofensas, e saudosas das agressões psíquicas sutilmente urdidas por aquilo que chamam de amor. Pois como era boa a vida! Era tão bom abrir as pernas mais uma vez para o cara encher novamente o ralo de esperma, enquanto vocês suspiravam baixinho aquela típica expressão feminina que sintetiza a evidência das coisas: que saco! Porque mulher não tem problemas; a merda são os homens. Vocês não são frias, falsas, manipuladoras, ambiciosas, seu cara é que é estúpido, vocês não, nada, nunca! Em todas há muito amor para dar... se o outro fosse evidentemente um outro! Inclusive, para demonstrar a si mesmas que suas bocetinhas ainda ardem, reservam para o íntimo bidê o fogo de um tesão utópico por um primo, um professor, um dentista qualquer – contudo, com o extremo cuidado de nem lhes lançar um olhar, sequer de relance – que o maridão já anda desconfiado. Mas lá vem o troco, tudo em casa é toma-lá-dá-cá: vocês também vigiam em cima, e já estão de olho na perniciosa movimentação de uma vizinha; parabéns, como são espertas! Ele não come a vizinha, vocês não dão pro primo, tudo bem: a isto se dá o nome de convívio civilizado. (Bem se vê o quanto estamos anos-luz à frente dos primatas!) Que saudades de casa! Mas – é certo – um dia o autocontrole falha e, como tudo é uma grande farsa, todos, maridos e mulheres, pulam a cerca para desafogar as tensões. (Eu me pergunto: quem erigiu essa cerca?) Mas, psiu, é segredo que se guarda a sete chaves dentro dos bares e cabeleireiros. E quem não pula, ou não ainda, dia virá que se lamentará e xingará a vida por não o ter feito na devida ocasião, quando então descobrir, tarde demais, que sua cara-metade tem outro ou outra ou muitos ou muitas, e desde sempre – mas aí a oportunidade já era. Resta amargar o ódio ao outro, aos filhos, a tudo aquilo que faz a vida parecer um jogo idiota. É disso que sentem saudades. De cozinhar comida azeda para o parceiro amargo. Saudades: de ouvir do maridinho o comentário inevitável de que seus corpinhos eram mais graciosos antes dos filhos nascerem. Saudades: de tentar manter desesperadamente um casamento que naquele dia expira, chupando como nunca o pau do cara, a fim de demonstrar que são capazes de ser tão promíscuas como as amantes – mas é tarde. Nem sempre; algumas vezes, o brutamonte se sensibiliza e resolve dar mais um tempo, mas então são vocês que ganham confiança, partem para a vingança e o abandonam com o primeiro burguês que lhes cruza o caminho – porque aprenderam a lição, estão mudadas, renovadas, animadas. Mas cuidado! Podem acabar logo adiante se engasgando no pinto novo, quando a chama fugaz do sexo novamente miar – e o velho maridão é orgulhoso, não vai querer de volta esposa reusada. Saudades. Saudades da nostalgia de não saber quando começou o horror ou por que as coisas têm de ser assim.
Metade de vocês, homens ou mulheres, estão se identificando com meu discurso, a outra metade pensando: não é bem assim, ao menos conosco. Pois eu lhes garanto: esta última facção sofre mais, porque a merda rola solta ainda mais lá dentro. Ama-se o parceiro, por ele é amado, ambos compõem um casal possivelmente razoável, só resta um único problema, um detalhe: são infelizes. Estou enganado? Parece que alguma coisa está faltando... É, e não é pouco. Carinhos mecânicos, conversas repetitivas, agressões veladas; o pau brocha ante a xoxota seca, a xoxota seca ante o pau mole; um procura médico, outro terapia. Sim, os filhos cresceram e deixaram um vazio... Pois eu digo: fiquem atentos; vocês são do tipo que um dia acorda, e de repente o outro foi embora. Então puf! estoura a lamparina que lhe restou dentro de si, o que soçobrou de uma vida sem sentido...
Ora! Nascemos todos num campo de batalha, e disto sim não temos culpa. Estamos pagando por um desvio na cadeia evolutiva do Homo sapiens, que se deu casualmente num dia qualquer há duzentos mil anos, quando um homem e uma mulher que viviam inocentemente juntos, subitamente, atônitos, entreolharam-se, e a mulher se espantou com o espanto do homem que, sem razão aparente, diante dela, perguntou-se pela primeira vez: por que esta? Como não concebeu resposta alguma, continuou com a mesma em detrimento das demais – talvez por inércia ou preguiça, talvez porque a fêmea lhe preparasse um bom bisão, o certo é que ela adorou ser a escolhida. Suas irmãs, primas e amigas que souberam do caso aprovaram o acordo tácito e também quiseram um homem só para si – e para isso desenvolveram técnicas bastante sofisticadas de persuasão. Desse momento até os dias de hoje foi um pulo. Outras versões são possíveis, eu sei: pode ter acontecido de um homem mais neandertal que os demais deslumbrar-se por uma dona de caverna tão gostosa, que desejou possuí-la unicamente para si, e fechou questão quanto a isso. Outros observaram, acharam a ideia legal e saíram na porrada à cata das suas. Aí a culpa recairia sobre nós, homens. Um ou outro, alguma coisa aconteceu lá atrás que, de uma hora para a outra, institucionalizou-se a posse e não o misterioso amor como elemento de ligação. E, depois de tanto tempo, quem desata esse nó?
Mas é claro que vocês, mulheres, não podem entender uma obra em que são justamente as protagonistas. Todavia, admira-me em particular a ala masculina também vir a se opor. Será tão difícil compreender que se busca simplesmente arrancar esse estalactite moral que se formou entre os dois sexos, para que vivamos em paz com nossos instintos e possamos nos aproximar desta coisa chamada amor? Que por isso precisamos desenvolver ao máximo nossa compreensão racional sobre a natureza feminina, para que possamos nós, homens, resgatar a mulher lá do ponto obscuro para onde ela misteriosamente se refugiou? Que, como consequência, necessitamos investigá-las, examiná-las, analisá-las? E que, concluindo, só uma pessoa tem hoje esse poder no mundo, e essa pessoa sou eu, uma vez que sou um imperador especialmente sensível na arte de observá-las e ainda possuo respaldo econômico e militar para esse fim? Não percebem que não haverá jamais outra oportunidade, para mais ninguém, até o fim dos tempos? (A história, meus amigos, não abre a mesma porta duas vezes.) Não veem como o destino me obriga à tarefa? Eu, de minha parte, hei de cumpri-la, custe o que custar. Deste dia em diante, usarei de energia nas ações e deixarei de lado a benevolência dos verbos. Instauro neste instante um campo de concentração no município de Bom Jesus da Lapa, no oeste da Bahia. Para lá serão enviadas, numa terceira categoria de seleção, todas aquelas que o imperador suspeitar, mesmo de leve, que se apresentem diante dele com artifícios de qualquer espécie. Mandarei para lá, e não a qualquer presídio, pois serão muitas, muitas! É guerra. Já estou guerreando. Chega de ignorância. Estamos perdendo tempo. É bom refletirem.”


       



Dentro do estádio:
Décimo sexto dia; imperador: Não, não, sim, não...
Uma senhora escolhida: V.M. lembra de mim?
Imperador: Não recordo...
A senhora: Sou a mãe do seu primogênito.
Imperador: Ora, não diga... de fato, é grande a semelhança. Meu filho havia mesmo me avisado que a senhora era mineira...
A senhora: Sim, senhor. E solicitei-lhe que me colocasse entre as primeiras...
Imperador: Não podia. Ele será advertido por...
A senhora, interrompendo: Não faça isso, por favor, o rapaz está transtornado. Não é fácil para ele ver a mãe nessas condições...
Imperador: Não há nada demais com essas condições.
A senhora: Não quis dizer isso. Mas V.M. deve compreender um pouco a psicologia de um jovem.
Imperador: Não entendo de psicologia, somente do todo. Além do mais, a senhora sabe que se trata já de um homem...
A senhora: Ainda jovem. Para um pai, um marido, a exposição pública do nu de uma filha ou esposa constrange, mas ainda menos do que para um filho ver sua mãe...
Imperador, interrompendo: Não tenho tempo nem paciência para análises dessa natureza. A senhora está sendo impertinente.
A senhora: Perdão, estava tão ansiosa pelo nosso encontro que acabei falando o que não queria... perdoe-me, não foi por esse motivo que...
Imperador, interrompendo: Sim... A senhora foi escolhida por conta de ser muito elegante para a idade, firme, conservada, sensual, apesar do semblante bastante carregado.
A senhora: Obrigado pelas palavras... Há muito eu desejava obter uma audiência com V.M... pelas vias oficiais é impossível... Não queria usar o menino... e agora que consigo me aproximar,  me vejo nesta situação insólita... assim...
Imperador: Se a senhora vai chorar, adeus. Caso tenha algo a dizer, estou à sua disposição. Mas seja breve.
A senhora: Quero apenas o seu consentimento para ter mais acesso a ele, ficar junto, ajudá-lo naquilo que puder, sinto muita falta (como venho sofrendo!), ele me foi arrancado tão cedo...
Imperador: De que forma nos conhecemos?
A senhora: Como pode ter esquecido? Bem, nem me reconheceu... O senhor passou pela fazenda do meu pai em Grão Mongol...
Imperador: Estou recordando, esse nome não se esquece...
A senhora: ...até ficou mais tempo por minha causa. Disse-me tantas coisas naqueles dias, parecia tão verdadeiro... Sete meses depois passou o fiscal e me viu grávida...
Imperador: É a regra.
A senhora: Eu sei, o senhor deixou claro...
Imperador: Filho de imperador vai para o palácio.
A senhora: Eu sei, aceito. Mas é preciso ver o outro lado. Eu era uma menina, fui amada por um imperador, e desse amor, que julgava ser verdadeiro, adveio uma criança. Quando nasceu, passou uma ambulância e levou meu menino embora, o menino e a esperança de que você voltasse...
Imperador: A esperança também partiu de ambulância?
A senhora: ...Então tomei consciência de que tudo tinha sido nada. Ilusão. Mentira. Sofri muito, perdi as estribeiras, fugi de casa, saí viajando pelo mundo afora até encontrar, anos mais tarde, um bom companheiro que gostou de mim, teve paciência comigo...
Imperador: Ciência da paz... com uma mulher!
A senhora: ...com quem casei e voltei pra minha terra – mas não pude mais ter filhos. Tudo bem, sou feliz com meu parceiro. Quando as coisas pareciam ajeitar-se, um lindo rapaz aparece um dia...
Imperador: Ele a procurou?
A senhora: Sim. E por toda a sua vida, como depois me revelou. Chegou, eu estava lavando louça (lembro-me como se fosse hoje), me abraçou...
Imperador: Sem detalhes!
A senhora: Como era doce...
Imperador: Vamos ao ponto!
A senhora: Se prefere um relato direto, daquele dia em diante aproximamo-nos demais e passamos a nos encontrar periodicamente. E, para que pudéssemos conviver de perto, levou-nos a Brasília, eu, minha mãe e meu marido, onde nos comprou uma bela casa. Pouco tempo depois, você deu início a essa triste loucura e novamente pôs tudo a perder. Pois como eu previa, e já avisara o menino, dificilmente deixaria de ser selecionada. Conheço meus dotes e você já gostou deles – e idade não é problema pra você.
Imperador: Agora me trata por você... Por que é tão cheia de ódio?
A senhora: Porque você me separa do meu filho uma segunda vez...
Imperador: Todas aqui têm seus casos particulares...
A senhora, aumentando o volume da voz: Mas eu não lhe pertenço, sou do meu marido e do meu filho – e sou de mim! Você está sequestrando a mãe do seu próprio filho!
Imperador: A senhora fala como se não houvesse retorno...
A senhora, aos brados: Que retorno? Ninguém é trouxa aqui pra acreditar em retorno. Tenho quarenta e um anos, passarei os próximos quinze encarcerada num quarto qualquer à espera de uma outra seleção que, afinal, pelas contas otimistas que fazem aí, levará no mínimo outros seis. Quando voltar do exílio, se sobreviver, estarei velha e acabada. Meu marido, com toda razão, já terá arrumado outra. E meu filho, diante do castigo infligido – eu sei como isso funciona – sedimentará minha ausência com o esquecimento, pelo bem de seu próprio espírito.
Ouvem-se risadas e gritos no estádio; imperador para o general: Onde está a cadeira? Rápido!
General, para um oficial: Tragam a cadeira! V.M. quer que a levemos?
Imperador falando e pensando, enquanto aumenta o bochicho: "Cale-se!" Não posso abrir exceção nenhuma, isso arruinaria todo o trabalho. Não devia ter deixado esta mulher começar a falar. Não ouvirei mais ninguém...
A senhora: Pois vou lhe dizer uma coisa, seu monstro, preste atenção: não vou pra merda dessa capital esperar por um imperador insano. Não vou me matar tampouco – você que o faça, se quiser. Quero ir para o campo de concentração. Ouviu? Vai ter que me mandar pra lá, entendeu bem?
Imperador, sentado: Cale a boca que estou pensando.
A senhora: Se devesse obediência calaria, mas como não tenho mais o que perder, não há por que obedecer. Não precisa pensar. Eu decido por você: campo de concentração!
Muitas aplaudem a mulher; imperador falando e pensando: "Segurem esta mulher e calem sua boca. E cessem esses distúrbios. Preciso pensar." Que Deus me ajude, não vejo solução...
General: V.M. poderia deixar esse caso para outro dia, quando os ânimos se acalmarem...
Imperador: Não, as regras não podem ser mudadas, preciso decidir, e já.
Os guardas seguram e tapam a boca da mulher, que esperneia; as mulheres se divertem no estádio; imperador pensando de cabeça baixa; conclui: Enviem esta mulher para o campo de concentração – tratem-na da melhor forma possível. E enviem também todas aquelas que abriram a boca nesse estádio!
                      




Novos trechos do estádio:
Décimo sétimo dia; imperador para o general: Eu preciso de uma cadeira de rodas elétrica, ágil, veloz; não consigo ficar assim parado.
General: V.M. tem estado muito depauperado; lembre-se que o médico me confiou a responsabilidade de mantê-lo sentado.
Imperador: As dores estão melhores.
General: São os analgésicos.
Imperador: Me ajude a tirar este colete.
General: O senhor não deve. Com o perdão de minha insolência, até mesmo V.M. precisa aprender a obedecer. O médico acha que seu estado pode complicar, e, caso não faça repouso, terá de sedá-lo.
Décimo oitavo dia; general: Se o senhor me concedesse meia hora a sós... Há boatos terríveis, majestade...
Imperador: Não quero saber de nada. Fale direto com meu irmão.
General: Não posso...
Imperador: Agora estou trabalhando.
Décimo nono dia; imperador: Onde está o general?
Coronel: V.M., o general caiu de cama e pediu-me que o substituísse...
Imperador: Alguma coisa grave?
Coronel: Não, nada demais, logo estará restabelecido...
Imperador: Também não ando nada bem...
Vigésimo quarto dia; imperador: Estou com a sensação de que já analisei essas mulheres...




 

Médico, enfermeiras etc. no quarto do imperador:
Imperador: Não me dopem.
Médico: V.M. necessita de sono.
Imperador: Quero estar disposto amanhã.
Médico: Para tanto, precisa dormir.   
Imperador: O que está me dando?
Médico: Analgésico e calmante.
Imperador: Por que na veia?
Médico: Comprimido não faz mais efeito. Não se preocupe, o calmante o fará dormir apenas oito horas. Amanhã cedinho o senhor estará bem mais disposto.
Imperador: Oito horas é muito. Que barulho é esse?
Médico: Não é nada. Agora relaxe.
Imperador: Enfermeira: chame já meu secretário.
Entra o secretário: V.M. chamou?
Imperador, enquanto o médico lhe aplica rapidamente a injeção: Que está acontecendo?
Secretário: Nada demais, majestade; seu filho se exaltou um pouco e acabou agredindo um segurança.
Imperador: Como nada demais? Por que o impedem de entrar?
Secretário olhando para o médico: Para não atrapalhar o descanso de V.M. O doutor pediu...
Imperador, sonolento: O doutor? Agora esse urubu-branco manda no império?
Secretário: Desculpe-me...
Imperador, interrompendo: Vá buscá-lo agora, imediatamente.
Secretário olhando para o médico: Sim senhor.
Imperador: E quanto ao senhor, doutor, rua!
Doutor: Já estava indo mesmo, majestade, durma bem.
Doutor sai; imperador, quase dormindo: Ele está bravo comigo... não vai me perdoar... mas precisa entender...
Imperador dorme em seguida.



 


 

O sonho do imperador:
Entrando no estádio, de madrugada: Acordem meninas, acordem, como são deliciosas dormindo! Millheres, parecem um corpo contínuo, deem-me licença, ei nega, neguinha, acorde, coitada, tão cansada! vamos trabalhar, vamos, hoje faremos um turno noturno. Sinto-me especialmente bem, minhas costas estão ótimas, cadê meu general?
General vestindo a calça, ao mesmo tempo em que caminha atabalhoadamente em direção ao imperador: Aqui estou, meu imperador!
Imperador: Desde quando o senhor dorme aqui dentro?
General: É preferível, senhor, não posso perder tempo.
Imperador: Repare, a luz azulada recobrindo os corpos como uma névoa... sinta esse aroma sonolento exalando dos poros adormecidos... Meu amigo, minha vontade é de mergulhar, rolar sobre todas, amalgamado, indefinido, esquecido de tudo... Que tesão, general, estou sentindo um real tesão!
General: Melhor seria dizer um tesão real!
Imperador: Havia muito que meu pau não se enrijecia assim, sem mais, só de ver...
General: O meu também, olhe só.
Imperador: Está enorme, general!
General: Obrigado, majestade. Confesso que não tem sido fácil conter-me seguidamente em meio a essas senhoras. Algumas vezes sou tomado por um transe e me borro sozinho.
Imperador, olhando para um grupo de mulheres que despertam e espreguiçam-se logo adiante: O senhor é um bom homem. E está no melhor da forma. Mais velho do que eu e, no entanto, cheio de vitalidade. Não deve ser nada agradável cumprir sua tarefa diante de tantos estímulos. Nem ao senhor, nem aos demais oficiais. Mande uma mensagem especial de gratidão a todos, em meu nome. Olhe lá como aquelas se esticam e se enroscam e se acariciam; parecem gatinhos procurando espaço na barriga da mãe, empurrando o irmãozinho de lado, escalando a cabeça do outro, tateando atrás de tetas, cegos, cegos por preguiça de abrir os olhos. Havia muito não sentia desejo.
Uma mulher do grupo, de costas, com um lenço na cabeça, à meia distância, começa a tocar uma canção ao violão, enquanto as outras cantarolam animadas:
Imperador: General, quero aquela roda toda, todas – não preciso nem examiná-las, a alegria é tudo. Que canção é essa?
General: Não é do nosso tempo, senhor.
Imperador: Já devia ter me ocorrido a ideia de trabalhar à noite. Há muito mais sensualidade no ar. As sombras amoldam. Traços sombrios se apagam. Elas ficam homogêneas, umas. Mulher é luz. Hoje todas estão tão belas! Não haverá seleção – posso ver daqui: todas! O lenço lhes cai bem, emoldura as costas, mas é proibido. Como entrou aqui?
General, enquanto se aproximam do grupo: É um sinal para a diferenciação.
Imperador: Diferencia o quê?
A mulher que toca levanta-se e se volta, com o violão ainda ao colo: Oi gato.
General: Majestade...
Imperador, rindo: Gato! E eu que ainda há pouco imaginava uma família de felinos... Gata é você.
A mulher pegando de imediato no pau do imperador: Que duro este imperador!
Imperador também tentando pegar no sexo da mulher, que recua e diz: Calma, querido!
Imperador: Não se pede calma para um homem nesse estado... General, segure o violão.
A mulher: Que pressa!
General: Majestade, o senhor precisa saber...
Imperador, investindo contra a mulher: Eu tenho pressa, gata, muita pressa, verdadeira urgência! Venha cá. Tire esse violão. Como conseguiu esse lenço?
O general, pegando o violão: Um minuto, por favor, senhor...
O Imperador avança, mete a mão entre as pernas da outra e salta pra trás, assustado; risos em todo o estádio.
Imperador: O que é isso?
General: Eu tentei avisá-lo, senhor: as de lenço são travestis. Não sabíamos em que categoria incluí-los, acabamos decidindo por trazê-los e sinalizá-los dessa forma.
O travesti, para o imperador: O que é que há, majia, qual é o problema?
Imperador, perplexo ante o contraste do belo corpo feminino e um falo: Não sabia, não esperava... se soubesse...
O travesti, aproximando-se e novamente mexendo no imperador: Relaxe, tesão, eu também sou mulher, também sou homem, tenho corpo como todas, como todos, como macho, como fêmea, pode me escolher, majia, tenho em mim mais mistério que qualquer um...ma..., deixe ver, unm...
Imperador, excitado: Ah, eh... Não é certo...
O travesti: Tudo é certo, relaxa e goza...
Imperador quase gozando, sem reparar num ritmo crescente de palmas compassadas em todo o estádio: Ah...
General: Majestade... majestade...
Imperador: Hein...?
General: As mulheres, senhor!
Imperador: Hem? Ah... O que há?
General, falando alto: Não estamos conseguindo detê-las.
Imperador de olhos fechados, à beira do gozo: Como?
General, aos berros: Estão descontroladas. Rebelião! Senhor, temos que sair daqui!
Milhares de mulheres são contidas com dificuldade pelos oficiais:
O travesti, rindo: Goza primeiro...!
Imperador, no limiar: Uai... mas por quê?
General: Elas não admitem ser trocadas por um travesti. Majestade, é sério, estão loucas, tudo pode acontecer.
Imperador abrindo os olhos, tomando pé da situação: Mas o que elas querem? Segurem essas neuróticas. Espere aí; não estou fazendo nada demais.
Uma avalanche de mulheres invade a área de cerco e arranham as costas do imperador, que é arrancado do lugar pelo general:
General: Por aqui, rápido, abram ala, corram!
Imperador, de cabeça baixa, protegendo-se: Não estou entendendo...
General abraçando o imperador, enquanto correm: Elas se sentem traídas. Esperam aqui há dias, enfrentando toda espécie de dificuldade, e nenhuma o excitou como um travesti!
Imperador: Mas não tinha intenção...
General: Explique isso à multidão...
Alcançam um portão com grades de ferro que é trancado tão logo ultrapassam, deixando pra trás as mulheres enfurecidas, que xingam e cospem através das grades, enquanto o imperador e sua comitiva adentram os corredores do estádio:
General: O senhor está nu.
Imperador: Arrancaram-me tudo pelo caminho.
General: Vista meu casaco.
O Imperador tenta vesti-lo, mas o casaco não serve e lhe prende os braços. De repente, recorda a sua condição de imperador e grita: Arrumem-me roupas decentes, já, imediatamente!
General abre uma porta: Me aguarde nesta sala, não saia até eu voltar. Aqui estará seguro.
Mistura de almoxarifado e vestiário, onde as mulheres penduram suas roupas em cabides numerados, que formam enormes corredores escuros pelos quais o imperador vagueia em silêncio, observando uma ou outra peça.
Imperador pensando: E agora, como vou reconquistar a confiança delas...? Se eu pudesse dormir um pouco, um cochilo que fosse me recobraria a...
Pela janela, avista uma mulher sendo conduzida por uma escolta no meio de uma rua deserta. É a mãe de seu filho. Pula a janela num salto e corre em sua direção:
Imperador: Alto lá! Pra onde estão indo?
Oficial: Prendam este louco.
Imperador: Eu sou o imperador.
Oficial: Eu também. Prendam este cara.
Um grupo de policiais agarra o imperador, enquanto a mulher grita histérica: Não, não, é mesmo, ele é o imperador!
Imperador: Me arrancaram a roupa, imbecis!
Oficial, ajoelhando-se: Agora estou reconhecendo. Peço mil perdões, eu não...
Imperador, interrompendo: O que estão fazendo com essa mulher?
Oficial ajoelhado, de cabeça baixa: Levamos essa senhora para o campo de concentração, tal como nos foi ordenado.
Imperador: Tudo bem, mas me deem um minuto.
A mulher: Pra quê?
Imperador: Recordo-me agora de tudo perfeitamente. Seu pai nos encontrou na estrada, e insistiu em levar a comitiva à sua fazenda. Estávamos na varanda, serviam-nos café, quando vi você chegar serelepe, abrir a porteira, jovial, vermelha, linda. Quedei encantado. Você não sabia como me cumprimentar, como se conduzir, eu falei que não se preocupasse, ficasse à vontade... Agora tudo está nítido. Então, com simplicidade e firmeza, você dizia que não esperava pela surpresa e sentia-se sem jeito por estar desalinhada, suada, pois vinha de uma cavalgada, que eu a desculpasse – de fato, você estava deliciosamente molambenta, cabelo gordo de pó, camiseta molhada nos sovacos, eu só olhava e ria, acendia, ali me apaixonava, daí era sua mãe ralhando pra você entrar, eu insistia que não, que deixasse...
A mulher, olhando obliquamente o chão, quase sorrindo: Já vou, mãe!
Imperador: Deixe-a, senhora, está bem assim. Então gosta de cavalgar?
A mulher: Vou daqui a Ouro Preto, beirando a ferrovia.
Imperador: É muito longe; deve gastar mais que um dia.
A mulher: Não. Vou e volto antes que escureça.
Imperador, voltando ao tempo presente: Você estava estupenda! Afinal, por que não fiquei com você?
A mulher: Você me queria, dizia que comigo era diferente, que me levaria embora...
Imperador: E o que aconteceu?
A mulher: Como nós fazíamos amor, lembra?
Imperador: Sim, nos passeios... Porque acabei prolongando a estadia mais uns dias. Mandei parte da comitiva embora. Seu pai estava preocupado...
A mulher: Ele me apontava a desigualdade da nossa relação, mas não queria ouvir. Que você só se aproveitava porque eu era moça e...
Imperador, interrompendo: Mas eu gostei muito de você, era sincero. Só não sei o que aconteceu. Minha cabeça anda totalmente confusa. Estou cansado...
A mulher: Você e meu pai quebraram o pau. Mas ele tinha razão.
Imperador: Por quê?
Oficial: Majestade, seu filho está chegando, é melhor partir...
A mulher aproximando-se, falando baixinho: Você me lambia, lambia, falava que precisava me conhecer com a língua, que nenhum recanto do meu corpo escaparia sem que fosse experimentado...
Oficial: Majestade!
Imperador: Já vou. Mas o que não deu certo? Por que não te levei comigo?
A mulher, empurrando-o: Corra, o menino quer vingar.
Imperador: Eu era muito jovem, deve ter sido isso...
A mulher: Corra!
Imperador sai correndo loucamente vielas escuras, perguntando a si mesmo por que corre, se é o Imperador. Exausto, avista o calculista bebendo num boteco fuleiro:
Imperador, ofegante: Que bom encontrá-lo, amigo. Você não imagina o que tem acontecido comigo. Me leve de volta ao palácio, estou completamente perdido. Ei, o que há com você?
Calculista cabisbaixo, enchendo a cara: Nada, majestade, ando chateado...
Imperador: O que o aborrece?
Calculista: Os cálculos, senhor, faço e refaço os cálculos.
Imperador: E então?
Calculista: Não são nada bons...
Imperador: Não vai dar?
Calculista: Em 24 dias de trabalho, apenas 78.787 mulheres computadas, o que não atinge um por cento do estado de Minas. É muito pouco, muito pouco...
O dono do bar, que aparece atrás do balcão: E o nosso majestoso escolhe cada uma! Parece que gosta de defeito! Onde já se viu levar gente sem dente?
Calculista: ...nem vivendo cem anos...
Imperador para o calculista: Estamos no começo, meu caro. Já te falei que essa etapa é a mais enroscada. Falta dinâmica. Falta habilidade. Mas não desanime...
Calculista: ...e o senhor doente...
Imperador: Isso passa logo...
Calculista: Como passa logo? Faz cinco dias que o senhor só dorme!
Um bêbado, que transparece numa mesa, aos fundos: Cinco meses!
Imperador, sorrindo: Não é tanto. Uma noite só. Eu precisava descansar um pouco...
Calculista quase chorando: O senhor não percebe...
Imperador: Estou me recuperando de uma hérnia de disco.
Calculista: O senhor não sabe...
Imperador: O quê?
Entram três putinhas jovens, e falam em uníssono: Olha quem achamos... um imperador de verdade...nuzinho... em carne e osso...
Uma puta: ...mais osso que carne...
Cercam o imperador que se levanta da cadeira e recua, fazendo sinais de contenção. Elas avançam e conduzem-no a uma mesa comprida, onde o obrigam a se deitar e começam a examiná-lo:
Outra puta: Deixa eu ver...
Levantam o membro flácido do imperador, que se deixa dominar, sem forças: Aqui tem mais carne do que osso.
Imperador: Meninas, me deixem, por favor, preciso dormir em paz, amanhã quero acordar bem cedo – não mexam aí. Aliás, o que vocês fazem aqui, deveriam estar nos alojamentos...?
O dono do bar: É trouxa...
O bêbado: Eu é que sou.
O calculista, embriagado: Respeitem meu senhor!
Uma puta, chupando o cacete: Não há o que faça subir.
A terceira: É melhor chupar o nariz.
Enquanto duas agarram seus braços, a terceira lhe asfixia chupando-lhe freneticamente o nariz. Acorda desesperado, com uma enfermeira contendo-lhe na cama.





Enfermeira aos berros; o médico entra no quarto e aplica uma injeção no imperador, que reluta o quanto pode, mas dorme novamente.
Dias depois, imperador acorda com sua cunhada à frente, vestida com um leve penhoar: Como vai, imperador?
Imperador reanimando-se ao vê-la: Nada bem; me sinto fraco, não consigo falar com o doutor, com ninguém, não sei o que estão fazendo comigo.
A cunhada, ao pé da cama: Vim me despedir.
Imperador: Pra onde você vai?
A cunhada: Eu não. Você vai.
Imperador: Pra onde eu vou?
A cunhada, em silêncio, olhando fixamente para o imperador: Como você foi forte! Que homem... O maior brasileiro de todos os tempos aqui, diante de mim. Seu irmão sempre teve ciúme e com razão; nunca pude disfarçar minha admiração.
Imperador: Se eu a conhecesse antes, talvez nem tivesse havido...
A cunhada chegando perto, interrompendo e falando baixinho: Mesmo moribundo, ainda assim... Como você fascinava as mulheres e, de certa forma, também os homens! Saiba: minhas pernas ficaram bambas naquela noite, quando me aproximei do nosso grande imperador. Mais tarde, nós dois ali, sozinhos, na porta do meu quarto... – não sei como me segurei. E olhe que não sou fácil – tenho quem eu quiser. Se você não tivesse estragado tudo...
Imperador: Me acusam de todos os lados...
A cunhada: Poder, caráter, beleza, generosidade... inteligência: todos os atributos num só homem. Só mesmo você para fazer um povo inteiro submergir a tamanha humilhação – por amá-lo, apenas. Contudo, você julgou que amor não tivesse limite e que pudesse levar o mundo à bancarrota. Bobinho. Bobinho da corte.
Imperador: Por favor, tire-me daqui.
A cunhada: Um pedaço da história a meio metro de mim. Tocar em você é tocar no tempo. Mesmo nessas condições, seco, pálido, a gente ainda sente...
Imperador: Por que os deuses me castigam? O que fiz de errado para merecer esse destino? Procurei minha vida toda alguém como você e...
A cunhada dobra um joelho na cama, de forma a aproximar os seios do rosto do imperador: Vim aqui me despedir.
Imperador, tocando os seios: Duas bolas de cristal, uma para o passado, outra para o futuro...
A cunhada, sem ouvi-lo: Lutei muito pra chegar onde cheguei... e agora tê-lo aqui, na minha casa, nas minhas mãos... eu precisava vir...
Imperador abrindo os botões do penhoar: Você renova minhas forças...
A cunhada,aproximando-se: Ave! Como está fedido! Não era pra te largarem assim. Que merda isso!
Caminha até o banheiro, molha uma toalha de rosto e nela borrifa um desodorante: Deixe eu lavá-lo...coitado...
Tira o pijama do imperador e passa suavemente o pano no peito, barriga, pescoço, coxas etc., repete a operação algumas vezes, até se deter no sexo: Ainda sente aqui?
Imperador: Muito... isso não tem funcionado, mas você faz...
A cunhada: Como pode? depois de tanta química, ainda sobe...
Imperador: ...você sabe...
A cunhada, despindo-se: Que potente o meu menino! Quero ser a última... quero guardá-lo comigo...
Imperador: Por que a última?
A cunhada se ajeita sobre o imperador e enfia o pau dentro de si: Agora não, não fale...
Imperador: Me parece a primeira!
A cunhada: Mas é a última, não fale...
Imperador: Quanto tempo não gozo. Estou virgem...
A cunhada, dizendo alto para si: Meu Deus, o que estou fazendo...!
Imperador: Que tesão, que amor, que buraco, que fundo, que mundo...
A cunhada, com movimentos ritmados: Goza, querido, não fale, não pense, fode... goza...
Imperador apertando os seios, goza e grita rouco: Estou de volta!
A cunhada: Ah...! Está consumado.
Imperador perde os sentidos, seu coração dispara, tem dificuldade em respirar e a sensação de que vai morrer. Ao abrir os olhos, a mulher já está vestida, ao pé da cama:
A cunhada: Deus que me perdoe, mas não resisti. Que merda tudo isso!
Imperador, trêmulo: Aonde vai?
A cunhada: Embora, imperador, embora!
Imperador: Você precisa me ajudar, ando muito atrapalhado...
A cunhada: Vou chamar o doutor, já que dispensei a enfermeira pra vir aqui...
Imperador, combalido: Não, não, não chame! ele me anestesia e não fala nada. Tire-me daqui, vamos estudar um jeito de mudar as coisas... Talvez não tenha dado certo, preciso pensar, rever... poderíamos ficar juntos, largo tudo, faço você imperatriz e...
A cunhada aproximando-se e falando pausadamente: Imperatriz eu já sou. Mas, por curiosidade, e quanto a seu irmão?
Imperador: Você não é Imperatriz. Quanto a meu irmão, não sei...
A cunhada: Seria capaz de me tirar do seu irmão?
Imperador: Não sei... Nunca tive alguém assim. Será que ele gosta tanto de você...?
A cunhada: Ele me ama.
Imperador: Mas como fica isso que sinto? Não entendo mais nada. Não sei se toda a complexidade do meu projeto não visava apenas encontrar uma pessoa como você...
A cunhada: Um pouco tarde, não?
Imperador: Estou confuso, desesperado. Me abro, me entrego, rebaixo-me como jamais fiz com ninguém, e sou tratado com sarcasmo. Engano a mim mesmo, eu sei. Não ouso enxergar quem você é realmente. Acho que quero achar que achei. Desespero. Aprisionaram-me dentro do meu próprio corpo e você é minha única saída – e usa desse poder...
A cunhada: E você usa de falsa sedução...
Imperador: De modo algum...
A cunhada, interrompendo: De modo algum! Você nunca se apaixonou por mulher alguma! Ora! Deixe de cena, todo o mundo conhece a sua história. Não sou a primeira, nem a centésima a ouvir seus encantos...
Imperador: Sempre fui verdadeiro, mesmo eventualmente tendo errado, e quem sabe magoado umas...
A cunhada: E quem me garante que não erraria comigo também?
Imperador, combalido: Provavelmente sim, e até já tenha errado, ante tudo o que nesse momento se descortina. Repito: sempre fui verdadeiro, na medida em que um homem bom pode sê-lo. Como você também é verdadeira, tanto quanto uma mulher pode ser má.
A cunhada: Não sou tão má assim.
Imperador: Talvez não seja, tanto quanto uma mulher má pode ser boa.
A cunhada: Não existe essa que você procura, caralho!
Imperador, falando lentamente: Mas caso exista – agora me certifico com segurança –, não seria você, apesar da sinceridade do meu sentimento. Reequilibra-me, me anima... depois me descarta como... Você é ruim.
A cunhada: Sou uma mulher. Nunca serei seu modelo ideal desvairado.
Imperador, lentamente: Não procuro um modelo, apenas um sentido. E você seria quase uma explicação. É evidente que desejo que minha busca culminasse numa relação amorosa – seja lá o que isso signifique –, mas esse objetivo é secundário. Quero ajudar a humanidade, isto é tudo. Quanto a ter uma mulher, naquilo que concerne às práticas de intimidade e convivência – e aqui repito o meu convite –, você bastaria pra quebrar o galho, mesmo sendo má e orgulhosa, o que a faz maravilhosa. E depois, você sabe falar, o que é raro, raríssimo...
A cunhada, indignada: Não sou má! Aliás, venho defendendo e, de certa forma, protegendo-o muito mais do que imagina. Não teriam permitido a você nem que desse início à sua loucura, não fosse meu esforço e minha ingerência. Manipulei, sim, e muito – especialmente seu irmão – mas por você. Também pelo império, é verdade (foi necessário esperar que o povo passasse a odiá-lo para que aceitasse o novo governo), no entanto conduzia as coisas tentando manter viva a remota possibilidade de realização do seu sonho. Mas não pense que o fiz por amor, pois não acredito que minha admiração e atração por ti chegassem a tanto; movia-me por uma espécie de paixão que logo vi se tratar de compaixão: você foi a única pessoa honesta que conheci. Sua loucura é de uma honestidade comovente. E eu não sou insensível a ela.
Imperador, baixinho: Você fala como se estivesse por trás das coisas...
A cunhada: E estive mesmo, mas não sozinha. Meu marido não goza da sua genialidade, mas tem grande talento. É e será um bom governante.
Imperador: Continue.
A cunhada: Quem está por trás das coisas é você. Nós estamos à frente. Mas tem imperador que é cego!
Imperador: Minha cunhada se acha muito importante, por eu ter transferido transitoriamente o comando a meu irmão...
A cunhada, perdendo a paciência: Transitoriamente coisa nenhuma, ele assumiu o trono em definitivo. Você fala com uma imperatriz, entende agora? Se quer saber eu lhe conto, tudinho. O povo é que foi avisado recentemente, quando a vaca foi pro brejo.
Imperador, com voz mais fraca: O que vocês disseram para o povo?
A cunhada: Que você adoeceu gravemente, que infelizmente tinha os dias contados, que tomávamos a dianteira dos acontecimentos, que estavam livres de cumprir o seu desatino, mas que, pelo respeito e amor que todos lhe deviam, continuaríamos um tanto mais sua tresloucada aventura, enquanto sua saúde permitisse – porém agora com voluntárias (na verdade, pagamos a milhares de vadias para que se prestassem ao papel, o que, de resto, ficou mais barato do que manter toda aquela mobilização), para que você pudesse viver seus últimos dias sonhando com o andamento da tal obra.
Imperador, quase sussurrando: ...milhares de vadias...
A cunhada: Que faziam número no estádio. Você nunca iria reparar.
Imperador, de olhos fechados: ...faziam número...
A cunhada: E mudamos o comando militar da operação para um esquadrão de nossa confiança.
Imperador: ...vítima de um golpe...
A cunhada: Mas, se quer saber, para a nossa surpresa, apresentaram-se milhares de voluntárias verdadeiras. Muitas. Você foi amado, meu querido! Inúmeras mulheres, algumas vindo de longe, ofereceram-se gratuitamente para representar diante do imperador, talvez por compaixão, talvez por mera curiosidade pelo seu julgamento, ou porque acreditassem de fato no seu ideal... ou ainda, e até mesmo, pela excitação de se despirem em meio àqueles cadetes rechonchudos... Muitas. Se isso te conforta, as putas eram minoria...
Imperador, balbuciando: ...minoria...
A cunhada: Manipulei? Fui ruim? Ao salvar o país da derrocada, fomos ruins? Ao preservarmos milhares de famílias, com o cuidado de não humilhá-lo – e esta luta foi minha, em particular – traímos a pátria? Seu filho chegou um dia aqui armado, nenhum segurança o impediria, e você já estaria morto. Quem o conteve? Você bem que merecia, mas pra ele... matar o pai... que já estava morrendo... o parricídio marcaria sua vida para sempre. Intercedi, acalmei-o, contei-lhe o plano, e ele acabou assentindo que seria ignorância fazer aquilo, que o povo poderia, no futuro, culpá-lo...
Imperador: Vocês me mataram.
A cunhada: Você precisa morrer para o bem de todos. Vivo, mesmo preso, mesmo enlouquecido, seria sempre um elemento perturbador. O povo iria um dia investigar e saber que você na realidade nunca esteve doente...
Imperador: Me mataram com essas injeções.
A cunhada: Para simular uma doença degenerativa.
Imperador: E eu, apaixonado por você...
A cunhada: O plano de matá-lo não foi meu. Mas sou cúmplice.
Imperador: E me contar tudo isso com água na boca é seu ou também não tem culpa?
A cunhada: Tornou-se uma obsessão para mim, ficar um momento a sós com você – não pude controlar-me. Isso é coisa minha. Mistura de tesão com vaidade, não sei... não nego minha culpa. Sabia o quanto você me idolatrava e, de certa forma, aproveitei. Queria levar sua porra comigo, entende? Não é assim que você gosta de falar? Não é esta a sua linguagem? Sentir o cheiro da porra do imperador, conhecer o tamanho de seu pau, ouvir teus elogios... Mas tem outro lado; considerava também que uma experiência assim poderia lhe trazer alívio, ser um final feliz. Deixaria a impressão de que você tivesse... Eu já estava indo embora, fui contida pelas suas súplicas, aí me chamou de má...
Imperador: Então me contou tudo... que estava na ponta da língua.
A cunhada: Eu sei o que me reserva... O que aconteceu aqui eu vou levar e, se me conheço, a ressaca será enorme. Você, não; vai esquecer em breve. Carregarei o peso desse impulso leviano para o resto da vida.
Imperador: O que você fez com o buraco de baixo não deve te preocupar tanto...
A cunhada: Eu sei... Não sei, mas talvez precisasse lhe contar movida menos por um prazer perverso que por respeito...
Imperador, interrompendo: Respeito!
A cunhada: Sim! Morrer dessa maneira, sendo enganado! Um homem como você!
Imperador: E meus oficiais?
A cunhada: Alguns estão presos, outros mortos – houve muita resistência. Seu general se recusou a aceitar...
Imperador: Pobre homem. Exijo que tratem aqueles que...
A cunhada, interrompendo: Pare com isso, você não exige mais nada!
Imperador: Para mim acabou. Que Deus liberte os homens a seu modo.
A cunhada: Já o fez...
Imperador fecha os olhos; fica em silêncio; continua: Se era uma farsa, por que meu filho quis matar-me?
A cunhada: Naquela altura, ele nada sabia, tínhamos receio de que ficasse do seu lado. Precisou ocorrer o incidente com a mãe. De qualquer forma, não sabíamos que ela estava na fila, teríamos evitado. Desconfio que também ele foi pego de surpresa. Comenta-se que ela ansiava por encontrá-lo e aproveitou... O episódio serviu de gota d'água; dias depois, fizemos o pronunciamento oficial.
Imperador: Peça a ele que me perdoe. Não. Não há razão. Diga a ele – não se esqueça – que eu o perdoo, de coração.
A cunhada: Duvido que o menino chegasse ao termo, mas corria-se o risco. Acho que queria apenas exigir valentemente um fim para tudo. Seu filho anda angustiado, não está bem; vocês eram muito próximos, ele se sente envergonhado com o seu destino. E também pressionado: num fim de semana, viu a mãe ser humilhada e, depois, o pai despencar do trono e virar objeto de chacota pelos corredores... Ele está cheio de ódio – talvez o melhor sentimento para suportar seu fim.
Imperador: Não entendo como você ainda brilha. Sua voz, sua linha de raciocínio, as palavras que escolhe, tão diferentes do caráter...
A cunhada, querendo chorar: Não são, não. Tudo isso sou eu, exatamente assim.
Imperador, querendo sorrir: Agora vai chorar. Já esperava, estava demorando. Não sei se você é a primeira ou a última dentre todas. Morrerei com essa dúvida.
A cunhada: A última, com certeza.
Imperador, reagindo à debilidade: Puta, assassina! "A última, com certeza!"; como pode resplandecer um monstro assim? Minha razão a abomina e meu coração seria capaz de se entregar mais uma vez. Humilhação! morrer fisgado por uma sedutora banal! Feiticeira! Mostre-me os peitos de novo, quero ver se ainda estão vivos.
Ouve-se barulho no corredor. Ela vai até a porta, abre, diz umas palavras, fecha e volta:
A cunhada: Não sou puta, nem assassina, nem você vai ver bosta alguma, feticheiro de merda! Vou me ferrar por terem me descoberto aqui, mas não me arrependo. Só agora percebo o sentido dessa visita; precisava certificar-me de que meu imperador levasse consigo a verdade, sobretudo a de que nunca o traí. Estou aqui para ficar em paz com a minha consciência. Fizemos o que foi possível, não havia outra alternativa. Segurei a barra no começo, tentei mostrar pra aqueles gaviões que você tinha lá suas razões. Que os meios estavam errados, todavia sua obra tinha fundamento. Tentei explicar inclusive que, independente do resultado, ela em si já se firmava como uma epopeia poética, de cuja grandeza poderíamos estar cegos e, talvez por isso, cobrados no futuro como aqueles que a impediram. Ora! fui bombardeada, humilhada pela corja a ponto de, se não fosse a intervenção do meu marido... Não quero agora dar uma de boazinha, porque minha benevolência nunca ultrapassou os limites da evidência do absurdo. Mas achei, de verdade, que se tivéssemos lhe dado a chance de realizar uma parte (um ou dois estados), já se herdaria algo, já se constituiria num acontecimento singular. Com fragmentos do sonho, seria possível então imaginar a dimensão do inatingível, sentir a distância  para o absoluto, como olhar para o céu do alto das ruínas de Babel. Nisso eu acreditava. Ninguém obviamente entendeu minha posição e, diante da reação, recuei e acatei as resoluções.
Imperador de olhos fechados, mergulhando no sono, balbucia: ...quantas palavras...
A cunhada: E quero completar, para não me fazer de santa, que as aceitei também com convicção. Conforme aumentava a instabilidade social, fui vendo que o governo, sobretudo meu marido, tinha razão.
Imperador, quase sonhando: Fala como homem... mas de resto, tão feminina... Notaram os pelinhos fininhos das axilas...? E... seu umbigo, como centraliza tudo...? Mas não senti seu cheiro... meu nariz não sente mais nada...
A cunhada, falando para si como se falasse pra ele, sentada ao pé da cama: Quando era menina tinha uma estranha fantasia: alguém está morrendo sozinho, num lugar deserto, isolado, sem que ninguém o veja; num naufrágio, por exemplo, no meio da floresta ou trancado dentro de um quarto, sem poder gritar, fugir ou o que quer que seja. Para essa pessoa, no último instante de vida, tudo pode acontecer. Imaginava então Deus apresentando-se a ela, com toda a sua luz. O morto, ainda vivo, pergunta-Lhe sobre tudo, e Ele o esclarece ponto por ponto, mistério por mistério, sem nenhuma pressa. Os dois então riem e se divertem porque, como não há retorno, a liberdade é plena, não existe mais obediência às leis naturais, às leis dos homens, nada. Ninguém para conferir – e tudo é permitido. Se a pessoa desejar comer um pedaço de melancia, aparece uma melancia – ninguém saberá; se quiser sair do seu corpo e deixá-lo agonizando – ninguém saberá. A ordem terrena das coisas foi inventada para o convívio comum – se não houver um outro, não precisa de ordem. Existiria o desejo puro. O vivo, quase morto, pode fazer desses últimos instantes a eternidade e daquele lugar o mundo, onde viverá em paz (com tempo de examinar pacientemente todas as mulheres, por exemplo) até se cansar de tédio e decidir morrer. Para isso, é só retornar ao tempo dos homens, deixar o corpo com falsos sinais de decomposição (se houver pelo destino a necessidade de que venha a ser achado), e ir. Isso tudo é diferente da possível liberdade do puro morto; veja, primeiro porque não sabemos o que há do outro lado (a eternidade é um sonho de quem vive); depois, porque é provável que o morto tenha mais o que fazer que reviver prazeres mundanos. Vivo, o quase morto pode viver seu sonho. Você, por exemplo, estaria livre agora para imaginar um espectro de mim mais perfeito que eu, sem meus limites, que o ame para sempre...
A cunhada aproxima-se e põe a mão no sexo do imperador, que dorme: ...e depois morrer satisfeito por ter encontrado a mulher. Mas para isso eu preciso ir embora. Só funciona quando se morre sozinho. (Caindo em si de que estava falando sozinha:) Está me ouvindo? Dormiu?
A cunhada confere que o outro não morreu, cobre-o com lençol e se retira.
Imperador, sonhando com a mãe de seu filho: Conheci muitas como você, que nos iludem no início com um ardor e uma alegria tão encantadoras quanto fugazes. Quanto mais gostosas são, mais vazias. Usam o fogo da libido para manipular o outro. Não têm substância, não sabem o que é felicidade. Agora entendo por que fui embora sozinho. Você ria de tudo e topava todas. Mesmo jovem, fazia sexo com técnica – eu nunca estive atrás disso.
A mãe: Eu tinha dezenove anos. Você quase trinta. Você quer a mulher pronta; como podia antever que um dia eu não conheceria o amor?
Imperador: Não sei...



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